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15 de Agosto de 2022
  • 2º Grau
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Superior Tribunal de Justiça
há 3 meses

Detalhes da Jurisprudência

Processo

Publicação

Relator

Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI

Documentos anexos

Decisão MonocráticaSTJ_RESP_1995151_511d8.pdf
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Decisão Monocrática

RECURSO ESPECIAL Nº 1995151 - SP (2022/XXXXX-0)

RELATORA : MINISTRA MARIA ISABEL GALLOTTI

RECORRENTE : WILSON APARECIDO DE SOUZA

ADVOGADO : WILSON APARECIDO DE SOUZA (EM CAUSA PRÓPRIA) - SP228823

RECORRIDO : EMÍLIA BRANDÃO SCHAIBLICH

RECORRIDO : SÍLON BRANDÃO SCHAIBLICH

ADVOGADO : DIOGO SALDANHA XARÃO - SP360949

DECISÃO

Trata-se de recurso especial interposto por Wilson Aparecido de Souza, no qual se alega violação dos arts. 85, § 14, 833, § 2°, e 1.022, I, do Código de Processo Civil, além de dissídio jurisprudencial. O acórdão recorrido está retratado na seguinte ementa (fl. 203):

AGRAVO DE INSTRUMENTO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. Penhora de 15% da verba salarial do agravante. Verba de natureza alimentar. Caráter impenhorável. Inteligência do artigo 833, IV, do Código de Processo Civil. Constrição ainda que parcial pode prejudicar a subsistência do devedor. Decisão mantida. RECURSO DESPROVIDO.

Foram opostos embargos de declaração, que ficaram retratados na seguinte ementa (fl. 334):

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. Penhora de 15% dos proventos dos embargados. Rediscussão da matéria. Nítido caráter infringente. Ausência dos requisitos do art. 1.022 do Código de Processo Civil. Acórdão que analisou todos os temas expostos nos autos. EMBARGOS REJEITADOS.

Sustenta o recorrente que os honorários advocatícios "constituem direito do advogado e têm natureza alimentar, com mesmos privilégios dos créditos oriundos da legislação do trabalho e segundo jurisprudência desta corte também se equipara aos alimentos devidos em razão da relação familiar" (fl. 227).

Afirma que deve ser autorizada "a penhora do salário do devedor para satisfazer pagamento de crédito de natureza alimentar (honorários advocatícios)" (fl. 229).

Alega, ainda, que "é possível a mitigação do caráter impenhorável da verba

salarial, permitindo-se a penhora de fração salarial do devedor para adimplemento de

obrigação de natureza não alimentícia" (fls. 229/230).

Assim posta a questão, passo a decidir.

Inicialmente, não conheço do recurso no tocante à questão da aplicação da

multa por embargos de declaração protelatórios, pois o recorrente não assinalou

nenhum dispositivo de lei federal que teria sido violado pelo acórdão recorrido, assim

como não indicou divergência jurisprudencial a respeito do assunto, o que faz incidir o

enunciado n. 284 da Súmula do STF, quanto ao ponto.

Com relação à suposta ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015, verifico que não

existe omissão ou ausência de fundamentação na apreciação das questões suscitadas.

Além disso, não se exige do julgador a análise de todos os argumentos

das partes, a fim de expressar o seu convencimento. O pronunciamento acerca dos

fatos controvertidos, a que está o magistrado obrigado, encontra-se objetivamente

fixado nas razões do acórdão recorrido.

Registro, por outro lado, que o julgado estadual está em consonância com a

jurisprudência do STJ, que firmou o entendimento de que os honorários advocatícios de

sucumbência não se enquadram nas hipóteses de exceção previstas no § 2º do art.

833 do CPC/15 a permitir a penhora de verba de natureza salarial. Nesse sentido,

confiram-se:

RECURSO ESPECIAL. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. INOCORRÊNCIA. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS DE SUCUMBÊNCIA. NATUREZA ALIMENTAR. EXCEÇÃO DO § 2º DO ART. 833. PENHORA DA REMUNERAÇÃO DO DEVEDOR. IMPOSSIBILIDADE. DIFERENÇA ENTRE PRESTAÇÃO ALIMENTÍCIA E VERBA DE NATUREZA ALIMENTAR. JULGAMENTO: CPC/15.

1. Ação de indenização, na fase de cumprimento de sentença para o pagamento dos honorários advocatícios, da qual foi extraído o presente recurso especial, interposto em 12/02/2019 e atribuído ao gabinete em 18/06/2019.

2. O propósito recursal é decidir se o salário do devedor pode ser penhorado, com base na exceção prevista no § 2º do art. 833 do CPC/15, para o pagamento de honorários advocatícios, por serem estes dotados de natureza alimentar, nos termos do art. 85, § 14, do CPC/15.

3. Devidamente analisadas e discutidas as questões de mérito, e suficientemente fundamentado o acórdão recorrido, de modo a esgotar a prestação jurisdicional, não há que se falar em violação do art. 1.022, II, do CPC/15.

4. Os termos "prestação alimentícia", "prestação de alimentos" e "pensão alimentícia" são utilizados como sinônimos pelo legislador em momentos históricos e diplomas diversos do ordenamento jurídico pátrio, sendo que, inicialmente, estavam estritamente relacionados aos alimentos familiares, e, a partir do CC/16, passaram a ser utilizados para fazer referência aos alimentos indenizatórios e aos voluntários.

5. O termo "natureza alimentar", por sua vez, é derivado de "natureza alimentícia", o qual foi introduzido no ordenamento jurídico pela Constituição de 1988, posteriormente conceituado pela EC nº 30/2000, constando o salário como um dos exemplos.

6. Atento à importância das verbas remuneratórias, o constituinte equiparou tal crédito ao alimentício, atribuindo-lhe natureza alimentar, com o fim de conceder um benefício específico em sua execução, qual seja, a preferência no pagamento de precatórios, nos termos do art. 100, § 1º, da CRFB.

7. As verbas remuneratórias, ainda que sejam destinadas à subsistência do credor, não são equivalentes aos alimentos de que trata o CC/02, isto é, àqueles oriundos de relações familiares ou de responsabilidade civil, fixados por sentença ou título executivo extrajudicial.

8. Uma verba tem natureza alimentar quando destinada à subsistência do credor e de sua família, mas apenas se constitui em prestação alimentícia aquela devida por quem tem a obrigação de prestar alimentos familiares, indenizatórios ou voluntários em favor de uma pessoa que, necessariamente, deles depende para sobreviver.

9. As verbas remuneratórias, destinadas, em regra, à subsistência do credor e de sua família, mereceram a atenção do legislador, quando a elas atribuiu natureza alimentar. No que se refere aos alimentos, porque revestidos de grave urgência -porquanto o alimentando depende exclusivamente da pessoa obrigada a lhe prestar alimentos, não tendo outros meios para se socorrer -, exigem um tratamento mais sensível ainda do que aquele conferido às verbas remuneratórias dotadas de natureza alimentar.

10. Em face da nítida distinção entre os termos jurídicos, evidenciada pela análise histórica e pelo estudo do tratamento legislativo e jurisprudencial conferido ao tema, forçoso concluir que não se deve igualar verbas de natureza alimentar às prestações alimentícias, tampouco atribuir àquelas os mesmos benefícios conferidos pelo legislador a estas, sob pena de enfraquecer a proteção ao direito, à dignidade e à sobrevivência do credor de alimentos (familiares, indenizatórios ou voluntários), por causa da vulnerabilidade inerente do credor de alimentos quando comparado ao credor de débitos de natureza alimentar.

11. As exceções destinadas à execução de prestação alimentícia, como a penhora dos bens descritos no art. 833, IV e X, do CPC/15, e do bem de família (art. 3º, III, da Lei 8.009/90), assim como a prisão civil, não se estendem aos honorários advocatícios, como não se estendem às demais verbas apenas com natureza alimentar, sob pena de eventualmente termos que cogitar sua aplicação a todos os honorários devidos a quaisquer profissionais liberais, como médicos, engenheiros, farmacêuticos, e a tantas outras categorias.

12. Recurso especial conhecido e não provido.

(REsp 1.815.055/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, CORTE ESPECIAL, julgado em 3.8.2020, DJe de 26.8.2020)

AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL - AUTOS DE AGRAVO DE INSTRUMENTO NA ORIGEM - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE DEU PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA RECURSAL DA PARTE AGRAVANTE.

1. Nos termos da jurisprudência deste Tribunal Superior, a regra geral da impenhorabilidade de salários, vencimentos, proventos, etc (art. 649, IV, do CPC/73; art. 833, IV, do CPC/2015) pode ser excepcionada para pagamento de prestação alimentícia e quando os valores excederem a 50 (cinquenta) salários mínimos, desde que, em qualquer caso, for preservado percentual de tais verbas capaz de dar guarida à dignidade do devedor e de sua família.

1.1. Em recente julgamento, a Corte Especial deste Tribunal Superior, ao analisar o Recurso Especial n. 1.815.055/SP, firmou entendimento no sentido de que os honorários advocatícios de sucumbência não se enquadram nas hipóteses de exceção previstas no § 2º do artigo 833 do CPC/15 a permitir a penhora de verba de natureza salarial.

2. Agravo interno desprovido.

(AgInt no REsp 1.974.510/DF, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 2.5.2022, DJe de 6.5.2022)

Destaco, ademais, que a jurisprudência desta Corte já decidiu que "(...) a

regra geral da impenhorabilidade de salários, vencimentos, proventos etc. (art. 649, IV,

do CPC/73; art. 833, IV, do CPC/2015), pode ser excepcionada para pagamento de

prestação alimentícia e quando os valores excederem a 50 (cinquenta) salários

mínimos, desde que, em qualquer caso, for preservado percentual de tais verbas capaz

de dar guarida à dignidade do devedor e de sua família" (AgInt nos EDcl no REsp

1.917.390/DF, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 21.3.2022,

DJe 24.3.2022). Nesse sentido, confira-se:

AGRAVO INTERNO EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA. PENHORA DE SALÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. ACÓRDÃO EM HARMONIA COM JURISPRUDÊNCIA DOMINANTE NO STJ. SÚMULA 83 DO STJ. INCIDÊNCIA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO.

1. Não se viabiliza o recurso especial pela indicada violação do artigo 1022 do Código de Processo Civil de 2015. Isso porque, embora rejeitados os embargos de declaração, a matéria em exame foi devidamente enfrentada pelo Tribunal de origem, que emitiu pronunciamento de forma fundamentada, ainda que em sentido contrário à pretensão da parte recorrente.

2. A jurisprudência vem entendendo que 'a regra geral da impenhorabilidade dos vencimentos, dos subsídios, dos soldos, dos salários, das remunerações, dos proventos de aposentadoria, das pensões, dos pecúlios e dos montepios, bem como das quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, dos ganhos de trabalhador autônomo e dos honorários de profissional liberal poderá ser excepcionada, nos termos do art. 833, IV, c/c o § 2° do CPC/2015, quando se voltar: I) para o pagamento de prestação alimentícia, de qualquer origem, independentemente do valor da verba remuneratória recebida; e II) para o pagamento de qualquer outra dívida não alimentar, quando os valores recebidos pelo executado forem superiores a 50 salários mínimos mensais, ressalvadas eventuais particularidades do caso concreto. Em qualquer circunstância, deverá ser preservado percentual capaz de dar guarida à dignidade do devedor e de sua família' ( REsp 1.407.062/MG. Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 26/2/2019).

3. Agravo interno não provido.

(AgInt no AREsp 1.844.359/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 9.5.2022, DJe de 11.5.2022)

No caso dos autos, a Corte local manteve a decisão que indeferiu o pedido

de penhora sobre percentual de salário do devedor, por entender que a penhora de

15% (quinze por cento) sobre os vencimentos do recorrido comprometerá a sua

subsistência e de sua família, conforme se extrai dos seguintes trechos (fls. 204/205):

(...)

Diante desta conjuntura, o conceito de impenhorabilidade de rendimentos deve ser relativizado e apreciado caso a caso, aplicando-o apenas àquela parte do salário, aposentadoria ou outro rendimento percebido pelo devedor, necessário para garantir a manutenção do mínimo existencial dele e dos seus dependentes, de modo que, mesmo com a penhora de parcela destes rendimentos, reste quantia suficiente para manter um padrão de vida digno para si e sua entidade familiar.

Na hipótese dos autos, nota-se que o devedor, está auferindo renda mensal de aproximadamente R$ 6.033,09, consoante demonstrativos de pagamentos, acostados às fls. 193/194, o que não representa quantia expressiva, de modo que a penhora de 15% (quinze por cento) de seus vencimentos comprometerá a sua subsistência e de sua família.

Sendo assim, a decisão atacada deve ser mantida por seus próprios fundamentos, não havendo nenhum desacerto nela que mereça reparo por esta E. Corte.

(...)

Com efeito, anoto que rever o entendimento do Tribunal de origem

demandaria o reexame do acervo fático dos autos, o que encontra óbice no enunciado

n. 7 da Súmula do STJ.

Em face do exposto, nego provimento ao recurso especial.

Intimem-se.

Brasília, 16 de maio de 2022.

MARIA ISABEL GALLOTTI

Relatora

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