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22 de Outubro de 2020
2º Grau
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Superior Tribunal de Justiça
há 6 anos
Detalhes da Jurisprudência
Processo
HC 268459 SP 2013/0106116-5
Órgão Julgador
T6 - SEXTA TURMA
Publicação
DJe 28/10/2014
Julgamento
2 de Setembro de 2014
Relator
Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA
Documentos anexos
Certidão de JulgamentoSTJ_HC_268459_3d3d7.pdf
Relatório e VotoSTJ_HC_268459_d3dae.pdf
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Relatório e Voto

Superior Tribunal de Justiça
Revista Eletrônica de Jurisprudência
  HABEAS CORPUS Nº 268.459 - SP (2013⁄0106116-5) RELATORA : MINISTRA MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA IMPETRANTE : ALBERTO ZACHARIAS TORON E OUTROS ADVOGADO : ALBERTO ZACHARIAS TORON IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO PACIENTE  : HÉLIO VITÓRIA DA SILVA PACIENTE  : ILDELIR BOMFIM DE SOUZA   RELATÓRIO   MINISTRA MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA (Relatora):   Trata-se de habeas corpus , sem pedido liminar, impetrado em favor de HÉLIO VITÓRIA DA SILVA e ILDELIR BOMFIM DE SOUZA, apontando como autoridade coatora o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Embargos infringentes 0000338-97.1993.8.26.0590⁄50003). Consta dos autos que os pacientes foram denunciados e pronunciados (fls. 41⁄47) como incursos no art. 121, caput , c⁄c 61, II, "e", do Código Penal. Eis o teor da incoativa:   EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA 3ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE SÃO VICENTE     Consta do incluso Inquérito Policial que JOSÉ AUGUSTO FALEIROS, qualificado às fls. 14, HÉLIO VITÓRIA DA SILVA, qualificado às fls. 88, ILDELIR BONFIM DE SOUZA, qualificada às fls. 89, entre 0h30min do dia 21 de julho de 1993 às 4h20min de 22 de julho de 1993, nas dependências do Hospital São José, situado neste Município e Comarca, dolosamente, deram causa à morte da vítima Juliana Bonfim da Silva. Hélio e Ildelir eram genitores da vítima adolescente Juliana, que à época dos fatos, contava com 13 anos de idade. A vítima sofria de anemia falciforme e, na madrugada do dia 21 de julho de 1993, foi internada no Hospital São José, por apresentar agravamento do seu estado de saúde em consequência dessa moléstia. Foi submetida a exames clínicos, onde se constatou uma baixíssima quantidade de componentes hemáceos, o que exigia, com urgência, uma transfusão de sanguínea. Este diagnóstico foi apresentado aos pais da vítima, que apesar de todos os esclarecimentos feitos por médicos do Hospital, recusavam-se a permitir a transfusão de sangue na paciente, invocando preceitos religiosos da seita Testemunhas de Jeová, do qual eram adeptos. O quadro da paciente agravava-se cada vez mais e uma das médicas do Hospital estava prestes a conseguir a autorização do pai da adolescente, Hélio, para que se fizesse o procedimento. Ocorre que a genitora da vítima, Ildelir, comunicou o fato a José Augusto, médico e adepto da mesma seita, em busca de orientação como proceder. Este compareceu ao Hospital e ostentado a condição de membro da “Comissão de Ligação com Hospitais das Testemunhas de Jeová”, influenciou os genitores da vítima a não concordar com a transfusão e intimidou os médicos presentes, ameaçando processá-los judicialmente caso efetuassem-na contra a vontade dos pais da paciente. Durante todo o tempo, os genitores da adolescente foram alertados que não havia outra alternativa à transfusão, caso desejassem salvar a vida da filha. Em resposta, declaravam que preferiam ver a filha morta a deixar ela receber a transfusão, pois se isso ocorresse ela não iria para o Paraíso. Ildelir chegou a assinar por escrito uma declaração (fls. 116) onde assume qualquer responsabilidade decorrente da recusa da transfusão sanguínea. Enfim, após inúmeras tentativas frustradas de convencimento dos pais da vítima, esta veio a falecer entre 4h10min a 4h30min do dia 22 de julho de 1993, em consequência de assistolia ventricular, crise vásculo oclusiva e anemia falciforme (fls. 73). Com tal conduta, os denunciados, para supostamente salvaguardar a salvação espiritual da vítima, impediram o procedimento médico adequado ao caso, concorreram para a sua morte e assumiram o risco pelo triste evento. Ante o exposto, DENUNCIO JOSÉ AUGUSTO FALEIROS DINIZ como incurso no artigo 121, caput , do Código Penal  e DENUNCIO HÉLIO VITÓRIA DA SILVA e ILDELIR BONFIM DE SOUZA como incursos no artigo 121, caput , c.c. artigo 61, II, “e” (contra descendente) do Código Penal. Requeiro que recebida, autuada e registrada esta sejam os réus citados para interrogatório e demais atos processuais até a pronúncia, para a final serem submetidos a julgamento pelo E. Tribunal do Júri e condenados, conforme o rito preconizado no artigo 394 e ss. e 406 e ss. do Código de Processo Penal. (...) São Vicente, 22 de julho de 1997 (fls. 37-40).   Inconformada, a defesa interpôs recurso em sentido estrito, tendo a Corte estadual, por maioria, negado-lhe provimento, nestes termos:   (...) Rejeito a preliminar de inépcia da denúncia, a r. sentença afastou-a corretamente. Como disse a digna juíza, o promotor de justiça "descreveu a conduta (...) de maneira clara e precisa, preenchendo assim os requisitos do art. 41 do Código de Processo Penal". E é verdade, não apenas em relação a José Augusto: ele "influenciou os genitores da vítima a não concordar com a transfusão e intimidou os médicos presentes, ameaçando processá-los judicialmente caso a efetuassem contra a vontade dos pais da paciente. Durante todo o tempo, os genitores da adolescente foram alertados de que não havia outra alternativa à transfusão, caso desejassem salvar a vida da filha. Em resposta, declaravam que preferiam ver a filha morta a deixá-la receber a transfusão" (fls. 3). Verdade ou não, a essa altura pouco importa; importa, sim, que os fatos estão descritos minudentemente, no tocante a todos os apelantes. E não há cogitar de nulidade da r. sentença de pronúncia. É certo que foi concisa; mas como se vê pela transcrição acima, disse o que precisava ser dito - nem mais, nem menos. Também não há falar em cerceamento de defesa. (...) A questão fática, em si, num primeiro momento - excluídas, portanto, as sutilezas médico-legais -, não oferece dúvida: apesar das negativas (fls. 231, 233 e 235), os apelantes ofereceram séria resistência à transfusão de sangue que poderia ter salvo a vida da menor. A r. sentença que os pronunciou disse, corretamente, que, "na pronúncia, há um mero juízo de prelibação, pelo qual o juiz admite a acusação sem penetrar no exame de mérito" (fls. 602); a meu ver, porém, deixou de enfrentar uma questão fundamental, de cuja resposta dependia a pronúncia: a recusa dos apelantes em consentir (ou no caso de José Augusto, a participação indireta mas, segundo a denúncia, decisiva nessa recusa) influiu no resultado, mesmo não impedindo o tratamento? é dizer: ante a recusa, o tratamento, mesmo podendo ser realizado, pode ter sido retardado o suficiente para, antes que os médicos se decidissem a fazê-lo, tenha-se tornado, quando menos, concausa da morte da vítima? Em síntese: há evidências bastantes de que os apelantes se opuseram firmemente a uma transfusão de sangue; pudesse ou não esse tratamento ser realizado sem seu consentimento, parece certo que a  conduta deles quando menos retardou o tratamento, está comprovada, por laudo necroscópico, a morte da vítima. É dizer; há prova da materialidade do fato e indícios suficientes de autoria e de participação; mais do que isto não se exige para a pronúncia (Código de Processo Penal, art 413). Se, por exemplo, a prova da efetiva oposição dos apelantes ao tratamento é satisfatória ou não, é algo que cabe aos jurados decidir. É possível, e faço minhas as palavras do eminente Des. Cerqueira Leite, no habeas corpus impetrado pelo apelante José Augusto, que este tenha, agido apenas "sobre o ânimo dos genitores da ofendida, e não de molde a intimidar os médicos"; também é relevante saber "se existia outra terapia, excluída a transfusão, em condições de prolongar a vida da ofendida", já que, se "havia terapia alternativa disponível negligenciada pelos médicos, cuida-se de cogitar de erro médico ou omissão de socorro" (fls. 671). O que se quer dizer é: já que parece fora de dúvida que tanto a lei penal quanto o código de ética médica autorizam a transfusão, em caso de iminente perigo de vida, independentemente do consentimento de quem quer que seja, é bem possível tenha havido culpa do hospital, que não só poderia como deveria ter realizado, de qualquer forma, o tratamento. Todavia - repito a existência, ou não, de prova efetiva da oposição ao tratamento; se essa oposição, caso tenha ocorrido, foi ou não essencial, de alguma forma, à não realização ou à demora do tratamento; se essa demora foi não concausa essencial à morte da vitima - são essas questões de aprofundada análise da prova. Questões, portanto, que cabe ao corpo de jurados decidir. Não se olvida a dramaticidade do fato; não se menospreza a dor dos pais e do outro apelante, amigo da família; muito menos se despreza a circunstância, que me parece bem clara, de que culpa muito maior (embora talvez não penal) reside na insegurança demonstrada pelo hospital no tratamento que, repito, poderia e deveria, objetassem os pais ou não, ser realizado. São essas, todavia, circunstâncias que não podem impedir a aplicação da lei à questão de que aqui se trata. E a lei é clara: tratando-se, como se trata, de questões fáticas de que existem indícios bastantes de autoria, não resta senão deixar a solução a cargo do corpo de jurados. Não hesito em afirmar que outra seria a solução, se se tratasse do exame, desde logo, do mérito da questão. Mas, ressalto ainda uma vez, cuida-se, aqui, de mero juízo de admissibilidade, e a meu ver impõe-se, acima do respeito à dor dos pais (e, sem dúvida, a do amigo do casal), o respeito à competência constitucionalmente assegurada ao Tribunal do Júri. (fls. 53⁄54, destaquei)   A ementa do aresto foi redigida nos seguintes termos:   Homicídio. Sentença de pronúncia. Pais que, segundo consta, impedem ou retardam transfusão de sangue na filha, por motivos religiosos, provocando-lhe a morte. Médico da mesma religião que, também segundo consta, os incentiva a tanto e ameaça de processo os médicos que assistiam a paciente, caso realizem a intervenção sem o consentimento dos pais. Ciência da inevitável conseqüência do não tratamento. Circunstâncias, que, em tese, caracterizam o dolo eventual, e não podem deixar de ser levadas à apreciação do júri. Recursos não providos. (fl. 49)   Na sequência foram opostos embargos declaratórios, rejeitados em aresto do qual se extrai o quanto segue:   Passo a analisar, uma a uma, as alegações dos combativos defensores. 1. Omissão quanto à expressa manifestação de vontade da vítima: Não houve omissão; trata-se, simplesmente, de alegação incompatível com a própria defesa dos recorrentes. Precisam eles, afinal, decidir-se: opuseram-se ou não a transfusão? Dizem, claramente, que não o fizeram (fls. 1.174, por exemplo). Mas, neste caso, a concordância, ou não, da vitima é destituída de toda e qualquer importância. Agora, se se opuseram, então a questão passa a ser, como se disse no acórdão, se a conduta foi ou não concausa do resultado; se, por exemplo, em vez de estimular a filha a aceitar o tratamento, a encorajaram a preferir a morte a ele, parece claro que pode ter ocorrido participação.   2.Arguição de nulidade do exame de corpo de delito: Em síntese, alegam os embargantes que os laudos são insatisfatórios, e não houve manifestação no acórdão acerca desta alegação. Mas eu disse, muito claramente, que "não se justifica nova conversão em diligência", pois "os laudos satisfazem às necessidades do julgamento". Afinal, não há dúvida da morte; ninguém lhe discute a causa principal; assim, como realizar um laudo que comprovasse, ou não, exatamente a questão a ser submetida ao júri, ou seja: se a conduta dos recorrentes contribuiu para o desenlace? Importa, porém, que não houve omissão acerca do fato, até porque já superado pela posterior conversão do julgamento em diligência. 3.Nulidade da perícia hematológica realizada por um só perito: Também aqui não há omissão. Transcrevo: "Porque, com todo o respeito, creio que a conversão em diligência determinada por esta Colenda Corte (fls. 858⁄86) foi desnecessária: se houve ou não a transfusão; quando, eventualmente, se deu; quem a realizou, como se procedeu a ela e por ordem de quem (fls. 860) são questões fáticas, que, em sua maioria - como se provou pelos resultados das diligências -, já tinham resposta nos autos, ou eram impossíveis de responder. (O mesmo se diga, aliás, das respostas dos quesitos das partes.) E pouco importa o fato de a maioria me parecer de pouca ou nenhuma importância no deslinde da causa: a relevância delas, de toda a sorte, tinha de ser decidida pelos jurados, e não por esta Turma Julgadora" (fls. 1.241, o primeiro grifo foi acrescentado). Ou seja: a diligência era desnecessária, e, portanto, a falha no laudo nenhum prejuízo causou, razão por que não há cogitar de nulidade. 4. Obscuridade no tocante ao indeferimento de indicação de assistente técnico: Com todo o respeito, parece-me que fui bastante claro ao dizer que a conversão em diligência requerida não se justificava; os próprios embargantes transcrevem o trecho do acórdão neste sentido (fls. 1.270). E transcrevem também o fundamento da decisão que indeferiu o pedido: os laudos satisfazem às necessidades do julgamento. Anoto que não há incoerência, necessariamente, nas respostas do perito (fls. 920), apontada pelos embargantes (fls. 1.269): uma coisa é curar; outra, muito diversa, salvar a vida. Não se curam várias doenças, sem que isto impeça de prolongar a vida do doente, às vezes indefinidamente. 5.Omissão quanto à existência de tratamentos médicos alternativos à transfusão. Mais uma das inúmeras questões de fato cuja decisão, creio ter deixado bem claro, compete - certa ou erradamente - ao júri. 6.Contradição quanto à expressão "impedir": Existiria, mesmo, se não fosse a nota de pé de página (fls. 1.241), acrescentada com este específico fim, que observa, com citação de dois dicionários conceituadíssimos, que "impedir" pode também significar "atrapalhar, retardar". 7.Nulidade da r. sentença: Ao dizer que a r. sentença "deixou de enfrentar questão fundamental", deixei claro, pela própria escolha do vocábulo, que isso ocorrera nos fundamentos da decisão. Ora, nada impede que se confirme uma decisão, embora por diferente fundamento; foi o que houve. 8.Contradição no que se refere ao nexo causal: Ao citar o bem lançado parecer da Procuradoria Geral de Justiça, fui muito claro ao dizer que propiciava "um bom começo" de resposta; especificamente, ao dizer que - como transcrevi - "o nexo causal não pode ser excluído" (grifos meus). E é sabido que, pela teoria adotada pelo eminente procurador de justiça (que fica clara no parecer), quando ele diz que o consentimento "por certo evitaria o resultado", está implícita a causa: evitaria o resultado da forma como ocorreu. Bem sabem os dignos advogados embargantes, então (que conhecem a teoria da conditio sine qua non melhor do que eu), não haver contradição alguma. Embora, friso, o acórdão não tenha aceitado este fundamento para a pronúncia; deixei muito claro que a questão é normativa, e não fática. Importa, porém, é que, também aqui, não há contradição. (fls. 82-85).   Seguiram-se, embargos infringentes, que não foram acolhidos por maioria. Eis o teor do voto condutor: (...) Com tal conduta, os pronunciados, para supostamente salvaguardar a salvação espiritual da vítima, impediram o procedimento médico adequado ao caso, concorreram para a sua morte e assumiram o risco pelo triste evento. Correta a decisão do v. Acórdão que os pronunciou, pois a recusa da transfusão de sangue por convicção religiosa, configurou, sim, em tese, o dolo eventual na morte de Juliana. Destarte, respeitada a posição do voto do douto Desembargador NUEVO  CAMPOS, não há se falar em absolvição dos embargantes. Em que pesem as referidas convicções religiosas dos acusados que, não obstante lhe são asseguradas constitucionalmente, a verdade é que a vida deve prevalecer acima de qualquer religião. Segundo as lições do mestre JOSÉ AFONSO DA SILVA, o direito à vida deve ser compreendido de forma extremamente abrangente, incluindo o direito de nascer, de permanecer vivo, de defender a própria vida, enfim, de não ter o processo vital interrompido senão pela morte espontânea e inevitável. (...) Conforme bem observado pelo d. representante ministerial em suas contrarrazões (fls. 728⁄732):   "Alegou que o Recorrente sugeriu outros tratamentos alternativos à transfusão de sangue recomendada pelos médicos que atenderam a paciente. Ora, o único tratamento possível para a infeliz vítima naquele grave estado era a transfusão de sangue. É o que declaram os peritos nos esclarecimentos de fls. 143:   'E-1: Sim. Quando se depara com crise de anemia falciforme, o tratamento mais adequado e de urgência, é a transfusão sanguínea, visto que a Anemia Falciforme é uma destruição maciça de glóbulos vermelhos e com isto há prejuízo da troca gasosa e a oxigenação dos tecidos do organismo. E-2: Segundo os compêndios de Hematologia, os medicamentos referidos nas fls. 15, não teriam possibilidade de êxito, pois não se tratam de medicamentos de urgência e além disso não substituiriam os efeitos conseguidos pela transfusão sanguínea.'   Em face desse esclarecimentos, a matéria, que é técnica, não comporta mais controvérsia: a única terapia que poderia ter alguma eficácia para o caso seria a transfusão de sangue. As chamadas terapias alternativas são lentas e de efeitos paulatinos - inviáveis para uma paciente que apresenta quadro assustadoramente reduzido de hemáceas e que exigia uma providência urgentes. (...)   O fato de Juliana vir sendo tratada há anos sem qualquer transfusão sanguínea apenas acentua a responsabilidade e descaso dos pais para com a saúde da vítima. Explica porque a criança apresentava um número tão baixo de hemáceas. Se não morreu antes era porque o quadro clínico foi se agravando sucessivamente até desembocar na sua morte. Dizer que a paciente nunca morreu antes, é um argumento tolo, pois só se morre uma vez e lembra a anedota do cavalo que estava sendo treinado para sobreviver sem se alimentar e 'estranhamente' morreu de fome após vários dias de conseguir a proeza. Porque será que o sujeito que caiu do décimo andar, só veio a morrer ao espatifar no térreo, após passar incólume pelo nono, oitavo, sétimo e todos os demais andares? Por que Juliana morreu só na data dos fatos, após as 'eficientes' terapias alternativas, que não deixaram 'prejuízos maiores?' Caberá ao juízo natural da causa, o E. Tribunal do Júri, decidir qual dos dois lados está dizendo a verdade. Para tanto a pronúncia se impõe. A vítima tinha apenas 13 anos de idade e como absolutamente incapaz (artigo 5, inciso I, do Código Civil), por força de lei, para todos os atos da vida civil, era representada pelos pais (artigo 384, V, do Código Civil). Assim, cabia aos pais e não a ela decidir acerca da submissão ao procedimento terapêutico. O argumento de que a recusa em aceitar a transfusão de sangue partia do temor em adquirir alguma doença contagiosa não se sustenta. Entre a morte quase certa (resultante da recusa à transfusão) e o eventual risco de contrair doença contagiosa através do procedimento, bastante remoto ante o rígido controle de qualidade que existe nos bancos de sangue a partir do advento da AIDS, a escolha só pode ser uma. O mal maior (a morte) deve ser evitado, ainda que com risco de adquirir o mal menor (a doença), principalmente se este for bastante pequeno".   Especialmente no caso do médico-embargante - JOSÉ AUGUSTO FALEIROS DINIZ - causa estranheza a sua intervenção no sentido de não autorizar a transfusão de sangue na vítima, pois, ao se formar, o médico jura respeitar a vida humana, não permitindo que crenças religiosas interfiram no seu dever de salvar vidas. (...) Ademais, havendo indícios suficientes de autoria, deve prevalecer a sentença de pronúncia, nos termos em que proferida. Lembro que não é possível agora a aplicação do princípio in dubio pro reo ; ao contrário, nesta fase vige o in dubio pro societate . (...) Resulta, de todo o exposto, que há prova da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria, de forma que o julgamento compete ao Tribunal do Júri, que tem sua soberania imposta constitucionalmente. (fls. 109-113).   Com esse desate, a defesa interpôs recurso especial, que não foi admitido na origem. Irresignada, manejou, ainda, agravo em recurso especial (AREsp 182.561⁄SP), ao qual foi negado provimento em decisão de minha lavra, mantida no julgamento de agravo regimental e embargos declaratórios pela Sexta Turma. Confiram-se, por oportuno, as ementas dos referidos julgados:   PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVOS EM RECURSOS ESPECIAIS. RECURSO DE JOSÉ AUGUSTO. APELO NOBRE INTERPOSTO ANTES DO JULGAMENTO DOS EMBARGOS DECLARATÓRIOS. AUSÊNCIA DE REITERAÇÃO DAS RAZÕES RECURSAIS. EXTEMPORANEIDADE. AGRAVO NÃO CONHECIDO. RECURSO DE HÉLIO E ILDELIR. VIOLAÇÃO AO ART. 13, § 2º, "A", DO CP. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 211⁄STJ, 282 E 356⁄STF. OFENSA AO ART. 18, I, DO CP. HOMICÍDIO. DOLO DA CONDUTA. REEXAME FÁTICO E PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7⁄STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. ART. 255⁄RISTJ. INOBSERVÂNCIA.  AGRAVO A QUE SE NEGA PROVIMENTO.   PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVOS REGIMENTAIS NOS AGRAVOS EM RECURSOS ESPECIAIS. RECURSO DE JOSÉ AUGUSTO. APELO NOBRE INTERPOSTO ANTES DO JULGAMENTO DOS EMBARGOS DECLARATÓRIOS. AUSÊNCIA DE REITERAÇÃO DAS RAZÕES RECURSAIS. EXTEMPORANEIDADE. AGRAVO NÃO CONHECIDO. RECURSO DE HÉLIO E ILDELIR. VIOLAÇÃO AO ART. 13, § 2º, "A", DO CP. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 211⁄STJ, 282 E 356⁄STF. OFENSA AO ART. 18, I, DO CP. HOMICÍDIO. DOLO DA CONDUTA. REEXAME FÁTICO E PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7⁄STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. ART. 255⁄RISTJ. INOBSERVÂNCIA. AGRAVOS REGIMENTAIS A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. A jurisprudência desta Corte consolidou entendimento de que a ausência de reiteração das razões recursais, após o julgamento dos embargos de declaração, torna inadmissível o recurso especial interposto. 2. É condição sine qua non ao conhecimento do especial que tenham sido ventilados, no contexto do acórdão objurgado, os dispositivos legais indicados como malferidos na formulação recursal. Inteligência dos enunciados 211⁄STJ, 282 e 356⁄STF. 3. A análise acerca do dolo da conduta, em sede de recurso especial, implicaria, necessariamente, o reexame do conjunto fático e probatório, o que não se coaduna com a via eleita, haja vista o óbice do enunciado nº 7 da Súmula desta Corte. 4. Esta Corte tem reiteradamente decidido que, para comprovação da divergência jurisprudencial, não basta a simples transcrição de ementas, devendo ser mencionadas e expostas as circunstâncias que identifiquem ou assemelhem os casos confrontados. 5. Agravos regimentais a que se nega provimento.   PENAL E PROCESSO PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE NO ACÓRDÃO EMBARGADO. EFEITO INFRINGENTE. INVIABILIDADE. EMBARGOS REJEITADOS. 1. O cabimento dos embargos de declaração em matéria criminal está disciplinado no artigo 619 do Código de Processo Penal, sendo que a inexistência dos vícios ali consagrados importam no desacolhimento da pretensão aclaratória. 2. Inviável a concessão do excepcional efeito modificativo quando, sob o pretexto de ocorrência de omissão na decisão embargada, é nítida a pretensão de rediscutir matéria já suficientemente apreciada e decidida. 3. Embargos de declaração rejeitados.   Daí o presente mandamus , no qual sustentam os impetrantes que a "patente falta de justa causa para a ação penal não se compadece com os formalismos que inviabilizaram o apelo-raro como a falta de prequestionamento e outros." (fl. 06). Dizem, inicialmente, que esta Corte, mesmo nos casos de agravos tirados de recursos especiais que foram improvidos, tem concedido habeas corpus quando demonstrada a ocorrência de constrangimento ilegal. Ressaltam que "a questão que se põe nesta impetração cifra-se em saber se a qualificação jurídica dos fatos é correta". Nesse sentido, asseveram que se trata de uma questão normativa e não fática. Argumentam que, a partir do momento em que os pacientes levaram a filha ao hospital e a internaram, com a intenção de que recebesse cuidados de profissionais capacitados, o dever de cuidado passou a ser da titularidade dos médicos, havendo uma sucessão na posição de garantes. Acrescentam, nessa linha, que, como os médicos do hospital, no qual estava a vítima internada, omitiram-se na prática da ação mandada, são eles os únicos aos quais, em tese, poder-se-ia imputar a prática delitiva na forma omissiva. Alegam que, de acordo com entendimento jurisprudencial, nas hipóteses que envolvem menores de idade com risco de morte, é dever do médico realizar o atendimento, ainda que em detrimento da vontade dos pais, por conta do sentimento religioso (testemunhas de Jeová). Sobre o tema, colacionam julgados do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Além disso, salientam que "a internação da filha pelos pais já tornou viável a realização da transfusão, em razão do dever médico de agir", sendo irrelevante a ausência de consentimento dos pais, e que se trata de caso claro de imputação do resultado a um âmbito de responsabilidade alheio. Defendem que, "sob o ponto de vista do nexo normativo (ou hipotético) de causalidade, foi a falta de transfusão devida pelos médicos (omissão do dever legal) que 'deu causa' ao resultado típico, e não a (anterior) ausência de consentimento para o tratamento." Asserem, outrossim, que "a imputação objetiva só poderia ser feita aos médicos, mas não aos pais que agiram no sentido da proteção da vida de sua filha." Por outro lado, alegam que,"se a denúncia e a pronúncia dão como certo que o comportamento dos pais foi movido por uma crença religiosa; se os autos dão conta de que os pais levaram a amada filha para o hospital, ainda que com o dissenso quanto à transfusão, mas buscando tratamento alternativo", tal comportamento não poderia ser típico. Requerem, ao final, a concessão da ordem para que os pacientes sejam excluídos da ação penal. Prestadas informações (fls. 1.841⁄1.843 e fls. 1.845⁄1.897), o Ministério Público Federal, em parecer da lavra da Subprocuradora-Geral da República Julieta E. F. C. de Albuquerque, opinou pelo não conhecimento da impetração, em parecer que guarda a seguinte ementa (fl. 2.145):   HABEAS CORPUS . Homicídio simples. Pleito de desconstituição da pronúncia. Impossibilidade pela via eleita. I - Demonstrada a materialidade e havendo indícios de autoria, compete ao juiz pronunciar o réu, submetendo-o ao julgamento pelo Conselho de Sentença do Tribunal do Júri. III - Parecer pelo não conhecimento da ordem .   Esta ordem foi distribuída por prevenção ao AResp 182.561⁄SP, já mencionado. Esclareço, também, que nesta Corte, pelo corréu, foi interposto recurso ordinário em habeas corpus , que foi improvido por esta colenda Turma, que, enfocando cenário distinto, entendeu que o afastamento do elemento subjetivo dolo não seria viável no seio do habeas corpus : RHC 8505⁄SP, Rel. Ministro FERNANDO GONÇALVES, SEXTA TURMA, julgado em 18⁄05⁄1999, DJ 07⁄06⁄1999, p. 132. É o relatório. HABEAS CORPUS Nº 268.459 - SP (2013⁄0106116-5)   EMENTA   PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO. (1) IMPETRAÇÃO COMO SUCEDÂNEO RECURSAL, APRESENTADA DEPOIS DA INTERPOSIÇÃO DE TODOS OS RECURSOS CABÍVEIS. IMPROPRIEDADE DA VIA ELEITA. (2) QUESTÕES DIVERSAS DAQUELAS JÁ ASSENTADAS EM ARESP E RHC POR ESTA CORTE. PATENTE ILEGALIDADE. RECONHECIMENTO. (3) LIBERDADE RELIGIOSA. ÂMBITO DE EXERCÍCIO. BIOÉTICA E BIODIREITO: PRINCÍPIO DA AUTONOMIA. RELEVÂNCIA DO CONSENTIMENTO ATINENTE À SITUAÇÃO DE RISCO DE VIDA DE ADOLESCENTE. DEVER MÉDICO DE INTERVENÇÃO. ATIPICIDADE DA CONDUTA. RECONHECIMENTO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. É imperiosa a necessidade de racionalização do emprego do habeas corpus , em prestígio ao âmbito de cognição da garantia constitucional, e, em louvor à lógica do sistema recursal. In casu , foi impetrada indevidamente a ordem depois de interpostos todos os recursos cabíveis, no âmbito infraconstitucional, contra a pronúncia, após ter sido aqui decidido o AResp interposto na mesma causa. Impetração com feições de sucedâneo recursal inominado. 2. Não há ofensa ao quanto assentado por esta Corte, quando da apreciação de agravo em recurso especial e em recurso em habeas corpus , na medida em que são trazidos a debate aspectos distintos dos que outrora cuidados. 3. Na espécie, como já assinalado nos votos vencidos, proferidos na origem, em sede de recurso em sentido estrito e embargos infringentes, tem-se como decisivo, para o desate da responsabilização criminal, a aferição do relevo do consentimento dos pacientes para o advento do resultado tido como delitivo. Em verdade, como inexistem direitos absolutos em nossa ordem constitucional, de igual forma a liberdade religiosa também se sujeita ao concerto axiológico, acomodando-se diante das demais condicionantes valorativas. Desta maneira, no caso em foco, ter-se-ia que aquilatar, a fim de bem se equacionar a expressão penal da conduta dos envolvidos, em que medida teria impacto a manifestação de vontade, religiosamente inspirada, dos pacientes. No juízo de ponderação, o peso dos bens jurídicos, de um lado, a vida e o superior interesse do adolescente, que ainda não teria discernimento suficiente (ao menos em termos legais) para deliberar sobre os rumos de seu tratamento médico, sobrepairam sobre, de outro lado, a convicção religiosa dos pais, que teriam se manifestado contrariamente à transfusão de sangue. Nesse panorama, tem-se como inócua a negativa de concordância para a providência terapêutica, agigantando-se, ademais, a omissão do hospital, que, entendendo que seria imperiosa a intervenção, deveria, independentemente de qualquer posição dos pais, ter avançado pelo tratamento que entendiam ser o imprescindível para evitar a morte. Portanto, não há falar em tipicidade da conduta dos pais que, tendo levado sua filha para o hospital, mostrando que com ela se preocupavam, por convicção religiosa, não ofereceram consentimento para transfusão de sangue - pois, tal manifestação era indiferente para os médicos, que, nesse cenário, tinham o dever de salvar a vida. Contudo, os médicos do hospital, crendo que se tratava de medida indispensável para se evitar a morte, não poderiam privar a adolescente de qualquer procedimento, mas, antes, a eles cumpria avançar no cumprimento de seu dever profissional. 4. Ordem não conhecida, expedido habeas corpus de ofício para, reconhecida a atipicidade do comportamento irrogado, extinguir a ação penal em razão da atipicidade do comportamento irrogado aos pacientes.               VOTO   MINISTRA MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA (Relatora):   De saída, cumpre consignar a impropriedade da via eleita, pois, após o julgamento de todos os recursos cabíveis, não se mostra acertado o manejo do habeas corpus como sucedâneo recursal. Todavia, havendo na impetração aspecto diverso do quanto assentado no já mencionado agravo em recurso especial (ausência de dolo ou de nexo de causalidade) e no recurso em habeas corpus , interposto por corréu (discussão sobre o dolo, voltando-se contra aresto distinto), entendo que é possível passar-se à verificação da ocorrência de patente ilegalidade. O presente caso trata de temática que suscita discussão que extravasa os lindes estritamente jurídicos, desaguando em debate de colorido filosófico, moral e religioso. Daí, acredito que, corporificando verdadeiro hard case , por mais completa e profunda que seja a saída alcançada, sempre haverá quem da solução discorde. Nesse panorama, amparada nas considerações que expenderei, apresento a convicção que, depois de muito meditar, entendi como a mais justa para o caso concreto, sem prejuízo de estar aberta a ouvir os pontos de vista, eventualmente, contrários ou complementares, dos cultos e experientes julgadores que integram este elevado Colegiado. O deslinde do caso arrasta-se há duas décadas, tendo em vista certas peculiaridades processuais, pertinentes à prova técnica, que paralizaram o feito no curso do sumário de culpa, para a realização de exame de corpo de delito indireto (a pronúncia é de 1997); houve, também, no seio do recurso em sentido estrito, a conversão do julgamento em diligência, da mesma forma, para complementação de perícia (o acórdão do recurso em sentido estrito é de 2010). Se, de acordo com Carnelutti, a tão-só existência de um processo penal militando em desfavor de alguém já representa uma pena em si, que dirá um processo penal que perdura por vinte anos. E, pior, com o risco de se ver declarado como assassino da própria filha - que pecha, que pesadelo. Chama a atenção a peculiaridade de a ação penal em testilha não envolver comportamento parental, à toda evidência, desumano, de pessoas que não nutriam bons sentimentos pela filha. Antes, a conduta irrogada envolve, na concepção de seus genitores, uma perda extremamente dolorida, iluminada por decisão dificílima, timbrada por uma opção religiosa, ou melhor, segundo a sua ótica, não havia propriamente uma opção, mas um imperativo: não ser possível autorizar o tratamento por meio de transfusão de sangue. Em parecer fornecido a pedido da Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro, o Professor, hoje Ministro do STF, Luiz Roberto Barroso asseverou:   As testemunhas de Jeová professam a crença religiosa de que introduzir sangue no corpo pela boca ou pelas veias viola as leis de Deus, por contrariar o que se encontra previsto em inúmeras passagens bíblicas [Gênesis, 9:3-4, Atos 15:28-29]. Daí a interdição à transfusão de sangue humano, que não pode ser excepcionada nem mesmo em casos emergenciais, nos quais exista risco de morte. Por essa razão, as testemunhas de Jeová somente aceitam submeter-se a tratamentos e alternativas médicas compatíveis com a interpretação que fazem das passagens bíblicas relevantes. Tal visão tem merecido crítica severa de adeptos de outras confissões e de autores que têm se dedicado ao tema, sendo frequentemente taxada de ignorância ou obscurantismo. Por contrariar de forma intensa o senso comum e por suas consequências potencialmente fatais, há quem sustente que a imposição de tratamento seria um modo de fazer o bem a esses indivíduos, ainda que contra a sua vontade. Não se está de acordo com essa linha de entendimento. A crença religiosa constitui uma escolha existencial a ser protegida, uma liberdade básica da qual o indivíduo não pode ser privado sem sacrifício de sua dignidade. A transfusão compulsória violaria, em nome do direito à saúde ou do direito à vida, a dignidade da pessoa humana, que é um dos fundamentos da República brasileira (CF, art. 1º, IV). (Legitimidade da recusa de transfusão de sangue por testemunhas de Jeová. Dignidade humana, liberdade religiosa e escolhas existenciais. In: Direitos do paciente. Coordenação Álvaro Villaça Azevedo e Wilson Ricardo Ligiera. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 368-369).   Ilustrativo, ainda, o quanto constante de publicação realizada pela própria religião das Testemunhas de Jeová:   Nos dias de Noé, antepassado de toda a humanidade, Deus estabeleceu uma lei digna de nota. Embora tenha concedido aos humanos o direito de comer a carne dos animais, ele proibiu o consumo de sangue. (Gênesis 9:4) Ele também explicou os seus motivos ao se referir ao sangue como sendo a alma, ou a vida, do animal. Mais tarde, ele disse: "A alma [ou vida] ... está no sangue." Aos olhos do Criador, o sangue é sagrado. Representa o preciso dom da vida que cada alma vivente possui. Deus repetiu esse princípio vez após vez. - Levítico 3:17; 17:10. 11, 14; Deuteronômio 12:16, 23. Pouco depois de o cristianismo ter sido fundado, há cerca de 2 mil anos, os cristãos receberam a ordem divina de 'abster-se de sangue'. Essa proibição não se baseava em questões de saúde, mas sim na santidade do sangue. (Atos, 15:19, 20, 29) Alguns argumentam que essa restrição dada por Deus só se aplica a comer sangue, mas a expressão "abster-se" fala por si mesma. Se um médico dissesse para nos abstermos de bebidas alcoólicas, dificilmente tomaríamos a liberdade de injetá-la na veia. A Bíblia apresenta outros motivos pelos quais o sangue é tão sagrado. O sangue derramado de Jesus Cristo, que representa a vida humana que ele deu em prol da humanidade, é fundamental para a esperança dos cristãos. Seu sangue é a base para o perdão dos pecados e para a esperança de vida eterna. Quando um cristão se abstém de sangue, ele está, na verdade, expressando sua fé em que apenas o sangue derramado de Jesus Cristo pode realmente redimi-lo e salvar a sua vida - Efésios 1:7. (...) Será que essa posição baseada na Bíblia significa que as Testemunhas de Jeová rejeitam tratamentos médicos ou que não se preocupam com sua saúde e com sua vida? De forma alguma! (...) As Testemunhas de Jeová, das quais algumas trabalham como médicos e enfermeiras, são conhecidas mundialmente por rejeitar transfusões de sangue total ou de seus componentes primários. Será que sua posição firme e unidade contra essa prática se origina de uma doutrina inventada pelo homem? Será que se baseia na crença de que a fé de uma pessoa pode curar doenças? Isso está longe de ser verdade. Por prezarem a vida como sendo um presente de Deus, as Testemunhas de Jeová se esforçam em fazer o melhor que podem para viver de acordo com o livro que acreditam ser 'inspirado por Deus', a Bíblia. (2 Timóteo 3:16, 17; Revelação [Apocalipse] 4:11). Ela incentiva os adoradores de Deus a evitar a prática de hábitos que prejudicam a saúde ou que colocam a vida em risco, como comer e beber em excesso, fumar ou mascar tabaco e se drogar. - Provérbios 23:20; 2 Coríntios 7:1. Por mantermos nosso corpo e o ambiente à nossa volta limpos, e praticarmos atividades físicas para ter uma boa saúde, estamos agindo em harmonia com os princípios bíblicos. (Mateus 7:12; 1 Timóteo 4:8) Quando as Testemunhas de Jeová ficam doentes, elas mostram razoabilidade por procurar assistência médica e aceitar a grande maioria dos tratamentos disponíveis. (Filipenses 4:5) É verdade que obedecem à ordem bíblica de 'persistir em abster-se de sangue' e, por isso, insistem em receber tratamento médico sem sangue. (Atos 15:29). E essa opção, em geral, resulta num tratamento de melhor qualidade. ( Revista Despertai , agosto de 2006, p. 10-12).  Sobre a questão dos riscos da transfusão de sangue, recentemente esta Corte assentou:   RESPONSABILIDADE CIVIL. CIRURGIA E TRANSFUSÃO DE SANGUE REALIZADA PELO HOSPITAL RECORRENTE EM 1997. VÍRUS HCV (HEPATITE C) DIAGNOSTICADO EM 2004. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. AÇÃO REPARATÓRIA. TESTES COMPROVARAM QUE DOADORES NÃO ERAM PORTADORES DA DOENÇA. NEXO CAUSAL INDEMONSTRADO. TEORIA DO DANO DIREITO E IMEDIATO (INTERRUPÇÃO DO NEXO CAUSAL). IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL. 1. Não há ofensa ao art. 535 do CPC quando o acórdão, de forma explícita, rechaça todas as teses do recorrente, apenas chegando a conclusão desfavorável a este. Também inexiste negativa de prestação jurisdicional quando o Tribunal de origem aprecia a questão de forma fundamentada, enfrentando todas as questões fáticas e jurídicas que lhe foram submetidas. 2. Adotadas as cautelas possíveis pelo hospital e não tendo sido identificada a hepatite C no sangue doado, não é razoável afirmar que o só fato da existência do fenômeno "janela imunológica" seria passível de tornar o serviço defeituoso. No limite, a tese subverte todos os fundamentos essenciais da responsabilidade civil, ensejando condenações por presunções. 3. Não se pode eliminar, aqui, o risco de transfundir sangue contaminado a um paciente mesmo com a adoção das medidas adequadas à análise do sangue. Para minimizar essa possibilidade, adotam-se medidas de triagem do doador, que não são todas infalíveis, eis que dependentes da veracidade e precisão das informações por este prestadas. Trata-se, como se vê, de um risco reduzido, porém não eliminável. Parece correto sustentar, assim, que aquilo que o consumidor pode legitimamente esperar não é, infelizmente, que sangue contaminado jamais seja utilizado em transfusões sanguíneas, mas sim que todas as medidas necessárias à redução desse risco ao menor patamar possível sejam tomadas pelas pessoas ou entidades responsáveis pelo processamento do sangue. (FERRAZ, Octávio Luiz Motta Ferraz. Responsabilidade civil da atividade médica no código de defesa do consumidor. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. p. 156-159) 4. Reconhecendo-se a possibilidade de vários fatores contribuírem para o resultado, elege-se apenas aquele que se filia ao dano mediante uma relação de necessariedade, vale dizer, dentre os vários antecedentes causais, apenas aquele elevado à categoria de causa necessária do dano dará ensejo ao dever de indenizar. 5. Mesmo sem negar vigência aos princípios da verossimilhança das alegações e a hipossuficiência da vítima quanto à inversão do ônus da prova, não há como deferir qualquer pretensão indenizatória sem a comprovação, ao curso da instrução, do nexo de causalidade entre o contágio da doença e a cirurgia realizada sete anos antes do diagnóstico. 6. Não ficou comprovada nos autos a exclusão da possibilidade de quaisquer outras formas de contágio no decorrer dos quase sete anos entre a cirurgia pela qual passou o autor (ora recorrido) e o aparecimento dos sintomas da hepatite C. 7. É evidente que não se exclui a possibilidade de ser reconhecida a responsabilidade objetiva do hospital em episódios semelhantes, porém o cabimento de indenização deve ser analisado casuisticamente e reconhecido, desde que estabelecido nexo causal baseado em relação de necessariedade entre a causa e o infortúnio. 8. Recurso especial provido. (REsp 1322387⁄RS, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 20⁄08⁄2013, DJe 26⁄09⁄2013)     Pelo mundo, há registros de casos em que a temática é enfrentada. Recentemente, na Argentina, a questão foi amplamente debatida, em relação a dois fatos, em que a opção, religiosamente determinada, foi respeitada, verbis :   02.04.13 Fallece la testigo de Jehová argentina que rechazó una transfusión (...) Ha muerto la testigo de Jehová argentina que agonizaba en un hospital después de negarse a recibir una transfusión de sangre después de un grave accidente, tal como publicábamos hace unos días en Info-RIES . María Menguele , de 74 años, fue atropellada el pasado 27 de marzo por un colectivo de la Tamse en barrio San Vicente de Córdoba (Argentina). Finalmente falleció en la noche del 31 de marzo en el Hospital de Urgencias a raíz de un paro cardiorrespiratorio, tal como informa La Mañana de Córdoba . Falleció la mujer testigo de Jehová que fue embestida por un colectivo de la línea T de Tamse y se negó junto a su familia a recibir una transfusión de sangre. María Menguele permanecía internada en el hospital de Urgencias y el deceso se produjo a raíz de un “paro cardiorrespiratorio” . El accidente se produjo el 27 de marzoen la intersección de calles Agustín Garzón y Diego de Torre de barrio San Vicente. Según detalla el medio argentino 26 Noticias , si bien el deceso se produjo el domingo 31 de marzo como consecuencia del paro cardiorrespiratorio que padeció la mujer, el hecho fue confirmado en la mañana del 1 de abril por fuentes del hospital municipal.

Entre la ética y la legalidad Desde el Comité de Bioética del hospital informaron de que los profesionales que atendían a la mujer, adepta de los testigos de Jehová, “tuvieron que admitir su expresión de voluntad” , en los términos de la Ley 26529 (Derechos del Paciente en su Relación con los Profesionales e Instituciones de la Salud). El artículo 2, inciso “E” de la Ley 26529 establece el principio de “autonomía de la voluntad” , según el cual “el paciente tiene derecho a aceptar o rechazar determinadas terapias o procedimientos médicos o biológicos, con o sin expresión de causa” . Por su parte, el director de la Maestría en Bioética de la Universidad Nacional de Córdoba (UNC), Alberto Sassatelli , precisó a la prensa que, en virtud de la autonomía del paciente, “cada uno es dueño de su cuerpo y de sus creencias, y puede disponer de ellas” . “Esa voluntad tiene primacía por sobre cualquier otra consideración” , precisó el académico al comentar lo sucedido con la mujer que, en virtud de sus creencias, se negó a recibir una transfusión de sangre. Tras el accidente, la mujer, que había llegado consciente al hospital, manifestó su negativa a una transfusión, lo que después fue refrendado por familiares con la firma de un documento, como lo prevé la ley, que libera a los médicos de las consecuencias que pudieran derivar de esa determinación.

Tratamientos alternativos a la transfusión Antes de la muerte de la anciana obstetra, el jefe de guardia del centro hospitalario, Maximiliano Citarelli , había confirmado que la mujer presentaba “un síndrome anémico importante” y estaba en “coma farmacológico” , tal como leemos en Rosario 3 . “Se encuentra con lesiones, con un importante sangrado y los métodos alternativos a la transfusión sanguínea que se están usando producen una reposición más lenta de sangre que con la transfusión” , detalló. Según publica La Voz del Interior , José Seirano , del Comité de Enlace de los Testigos de Jehová, indicó que la mujer, quien era obstetra, firmó un documento médico en el que solicitaba que no se la trasfundiera. “Es una posición que se toma de forma individual, no es obligatorio para todos los testigos de Jehovᔠ, indicó Seirano.

Antecedente en el país El último caso sobre este tema ocurrió en junio de 2012, en la ciudad de Buenos Aires, según informa La Voz del Interior . Pablo Albarracini , un joven testigo de Jehová que fue baleado durante un robo, se negaba a recibir una transfusión de sangre por razones religiosas, mientras estaba internado en la Clínica Bazterrica. El hombre de 38 años había firmado un documento, rubricado ante escribano público, en el que se negaba a recibir transfusiones de sangre en caso de necesitarla. Su padre recurrió a la Justicia para habilitar la práctica médica, pero la Corte Suprema de Justicia de la Nación ordenó que se respetara la decisión del joven de no recibir sangre. Finalmente, Pablo fue dado de alta, y se repuso. “Pablo tiene la visión del ojo izquierdo reducida y la mitad del cráneo hundido; se lo reconstruirán con cirugía plástica, pero neurológicamente está perfecto. Mantiene conversaciones y camina. Perdió 20 kilos mientras estuvo internado” , dijo el padre, cuando el joven salió de la clínica. A Pablo debían realizarle una cirugía para extraer la bala ubicada en la base de su cerebro. (fonte: site da Rede Ibero-americana de Estudo de Seitas: http:⁄⁄infocatolica.com, consultado em 16⁄01⁄2014)   Em idêntico trilho, a Justiça uruguaia respeitou o direito de uma Testemunha de Jeová de não se submeter a transfusão de sangue:   Accidentada falleció tras rechazar una transfusión Testigo de Jehová. Jueza apoyó la decisión de la mujer por su creencia religiosa MALDONADO | MARCELO GALLARDO Una mujer de 46 años perdió la vida como consecuencia de las heridas sufridas en un accidente de tránsito y su posterior negativa -por ser testigo de Jehová- a ser sometida a una transfusión de sangre en el hospital de Maldonado. Ángela Sosa resultó lesionada de consideración cuando el Fiat Uno que conducía su marido, y en el que también viajaba sus hija de 13 años, se estrelló contra una columna de bulevar Artigas y Shakespeare tras chocar con otro vehículo que circulaba en el mismo sentido, una camioneta Volkswagen Saveiro. El accidente ocurrió en la noche del miércoles 29 de febrero. Ángela Sosa sufrió un fuerte traumatismo de tórax por lo que fue asistida en el lugar del accidente por una unidad de emergencia móvil y luego fue trasladada al hospital de Maldonado. Empero, la mujer, que se encontraba "lúcida y consciente" al llegar al sanatorio, alegó su condición de Testigo de Jehová para no recibir la transfusión de sangre que pretendieron efectuar los médicos que la atendieron, informó la emisora local FM Gente. Fuentes del caso señalaron que hasta el propio médico forense le pidió que cambiara de actitud y que aceptara la transfusión para salvar la vida. La mujer se mantuvo en su posición hasta que poco después se descompensó y falleció. Sus familiares la acompañaban la apoyaron en todo momento. Fuentes consultadas por El País explicaron que si la persona lesionada se encuentra lúcida y con pleno dominio de sus facultades puede solicitar no recibir la transfusión de sangre apelando a sus creencias religiosas. Según informó Canal 7, la jueza Marcela Vargas dio el visto bueno en cuanto a que se respetara la decisión de la mujer, basada en su convicciones religiosas. "VERDAD MÉDICA". Carlos Olivett, director del hospital del Maldonado, dijo a Canal 7 que "la verdad médica no coincide con la verdad jurídica o la verdad religiosa" y señaló que, como médico, resulta muy difícil quedarse de brazos cruzados en un caso de esta naturaleza cuando hay posibilidades de intervenir por la salud del paciente. Olivett dijo que la causa de la muerte fue la "anemia aguda" -literalmente se desangró-, y sostuvo que en el caso de haberse practicado una transfusión "hubieran aumentado sensiblemente" las posibilidades de que la mujer se recuperara. En tanto, la Justicia pretende establecer las causas del siniestro para deslindar las responsabilidades de los conductores. Según trascendió, los conductores se acusaron mutuamente: ambos alegan haber sido encerrados por el otro. DICEN LOS TESTIGOS. "Queremos vivir vidas largas y saludables", establecen los testigos de Jehová: "Nuestras creencias religiosas promueven el respeto por la vida y nos ayudan a prevenir muchos problemas médicos comunes. Al igual que cualquier otra persona, cuando estamos enfermos, buscamos atención médica. No creemos en la curación por la fe. El tipo de tratamiento médico que se elija es asunto de elección personal. Los testigos de Jehová solicitamos tratamientos sin sangre, ampliamente utilizados y aceptados por la comunidad médica. Lo hacemos debido a que la Biblia nos manda: `sigan absteniéndose de... sangre`. Aunque rechazamos la sangre por motivos religiosos y no por razones médicas, muchos han reconocido que este rechazo ha ayudado a los testigos a evitar contraer enfermedades costosas y mortales como el Sida y la hepatitis. Ya que la Biblia no hace ninguna declaración clara sobre el uso de fracciones menores de la sangre o sobre la reinfusión inmediata de la propia sangre del paciente durante la cirugía, el uso de este tipo de tratamientos es una cuestión de elección personal". (fonte: Jornal El Pais: www.elpais.com.uy, consultado em 16⁄01⁄2014)   Na Inglaterra, mesmo em relação a um paciente adolescente, Testemunha de Jeová, foi respeitada a opção religiosa, que veio, ulteriormente, a falecer:   Jehovah's Witness teenager dies after refusing blood transfusion   Joshua McAuley, 15, refused blood transfusion because of religious beliefs after being crushed by car in West Midlands   theguardian.com, Tuesday 18 May 2010 10.49 BST   A teenage Jehovah's Witness who was crushed by a car as it crashed into a shop died after refusing a blood transfusion in hospital. Joshua McAuley, 15, was airlifted to hospital from the incident in Smethwick, West Midlands, on Saturday morning, but died later that day. The schoolboy, who received abdominal and leg injuries, is believed to have told doctors at Birmingham's Selly Oak hospital not to give him a blood transfusion because of his religious beliefs. Clive Parker, an elder at Kingdom Hall of Jehovah's Witnesses in Smethwick, where Joshua and his family worshipped, said Joshua was conscious after the accident and "made a stand on the blood issue". He said: "I don't want to talk about it any more than that because I don't want to add to the family's distress. "A mother has lost her son, and Joshua had a brother. He has lost his brother, he was there in the morning and then gone by the afternoon. "They are terribly distressed." A spokesman for Selly Oak hospital said he could not comment on the individual case but described the issue as an "extraordinarily complex area" with no set rules. He said: "There is not one single policy and not one single law regarding transfusions. "There is no automatic right to override parental wishes or that of a minor. It is a very complex area that has to be approached on a case-by-case basis. "Any decisions that have to be made are made in consultation with as many people as possible." A postmortem is expected to be carried out by a Home Office pathologist on Thursday. A spokesman for West Midlands police said Joshua's family, who live in Smethwick, did not wish to speak about the tragedy. He said: "The family of Joshua has asked for privacy at this difficult time … we ask that their privacy is respected." Two other adults were injured in the crash, which happened in the Cape Hill area at 11.14am. Police said a 24-year-old woman was in a serious but stable condition in hospital, and a 32-year-old man sustained a suspected broken arm and leg. A 28-year-old man from the Winson Green area of Birmingham who was arrested after the crash was bailed pending further inquiries, police said. (fonte: Jornal The Guardian: www.theguardian.com, consultado em 16⁄01⁄2014).   Por outro lado, o Poder Judiciário da Austrália, num caso em certa medida assemelhado ao presente, envolvendo paciente menor de idade, ordenou fosse realizada transfusão de sangue, a despeito da opção religiosa:   Jehovah's Witness teenager loses bid to refuse blood transfusion A court in Australia has ruled that a 17-year-old Jehovah’s Witness cannot refuse a life-saving blood transfusion despite his claim he would rip the tube out of his arm.   The case follows numerous others around the world in which Jehovah’s Witness patients have refused to receive blood for religious reasons. Photo: ALAMY By Jonathan Pearlman, Sydney 9:43AM BST 27 Sep 2013 The boy, four months away from turning 18, has said that any attempt to perform the treatment while he is under anaesthetic would be akin to rape and would violate his beliefs. The boy, who cannot be named for legal reasons, suffers from an aggressive cancer and has an 80 per cent chance of dying from anaemia if he does not have the treatment. His family has supported his decision and argued in court he was mature and “highly intelligent”. But a judge in the Supreme Court of New South Wales said the state must seek to preserve his life until he turns 18. In four months, however, the order will be removed. "The interest of the state is in keeping him alive until that time, after which he will be free to make his own decisions as to medical treatment," Justice John Basten said in his judgement. "The interest of the state in preserving life is at its highest with respect to children and young persons who are inherently vulnerable, in varying degrees." The case follows numerous others around the world in which Jehovah’s Witness patients have refused to receive blood for religious reasons. In 2010, a 15-year-old British schoolboy, Joshua McAuley, died at a hospital in Birmingham after refusing a blood transfusion following a car accident. Most health systems have developed specific protocols for dealing with parents who are Jehovah’s Witness and refuse blood on behalf of their child. Britain, like Australia, allows health authorities to apply for a court order to overrule the parents’ request. The Sydney Children's Hospital said the boy had a "cocooned upbringing" and his family had "little exposure to challenges of their beliefs from outsiders". The boy, who has Hodgkin's disease, has refused intense chemotherapy because it would probably lead to a blood transfusion. His father reportedly wrote a scripture reference to abstaining from blood on a whiteboard in the hospital room. (fonte: Jornal Telegrah: www.telegraph.co.uk, consultado em 16⁄01⁄2014).   Pois bem, o cenário retratado na ação penal era o seguinte: os pacientes, pais de uma adolescente de treze anos, levaram-na ao hospital, num quadro de sofrimento com a doença anemia falciforme. Os médicos, então, prescreveram transfusão de sangue, que, por razões religiosas, os pacientes se recusaram a fornecer o consentimento. Chamado médico adepto da religião, teria ele "ameaçado processar" os médicos do hospital, caso eles promovessem o tratamento considerado, segundo certa visão, religiosamente, herege, e, medicamente, perigoso. Veio a adolescente a óbito, na madrugada do dia seguinte ao seu ingresso no hospital. De pronto, chamou-me a atenção o fato de os pacientes terem socorrido sua filha, buscando salvá-la. Tal conjuntura em nada se articula, convenhamos, com uma postura homicida. A partir daí, o que sobreveio deve ser analisado numa perspectiva jurídico-sistemática, desvestindo-nos de crenças pessoais e preconceitos. Apreciando os acórdãos do recurso em sentido estrito e dos subsequentes embargos infringentes, visualizo que a razão se encontrava com os votos vencidos, que, nesta assentada, pretendo ver convertidos na ratio da concessão da ordem. Eis a compreensão divergente lançada no desate do recurso em sentido estrito:   (...) No caso em tela, o dissenso dos responsáveis pela ofendida, em relação à realização da transfusão de sangue, decorrente de suas convicções religiosas, versa sobre o direito à vida, direito individual pressuposto de todos os demais, que possui especial caráter de indisponibilidade. Assim sendo, em vista do iminente riso de vida, o dissenso não possuía o efeito de impedir a realização da transfusão de sangue e não afastava o dever legal do médico responsável pelo atendimento da menor de adotar o procedimento terapêutico necessário. A controvérsia, como se vê, versa, tão somente, sobre os efeitos do dissenso dos genitores e do médico, que, por professar a mesma religião daqueles, sem integrar a equipe que atendeu a ofendida, também se manifestou contrário à realização da necessária transfusão de sangue. O dissenso foi apontado na petição inicial como causa da morte da ofendida, pois teria consistido em impedimento da adoção do indispensável procedimento terapêutico para tentar preservar a vida da paciente, qual seja, a transfusão de sangue, reconhecendo-se, em consequência, o nexo de causalidade entre o dissenso dos réus e a ocorrência do evento morte. Respeitado entendimento diverso, a conduta dos réus não possui tipicidade penal, na medida em que, em se tratando de hipótese de iminente risco de vida para a ofendida, o dissenso dos réus não possuía qualquer efeito inibitório da adoção do indispensável procedimento terapêutico a ser adotado, qual seja, a transfusão de sangue. Os integrantes da equipe médica, que a atendiam, tinham o dever legal de agir. Ademais, nada há na inicial ou nos autos no sentido de que os genitores e o corréu tenham praticado qualquer espécie de conduta concreta no sentido de impedir a realização do procedimento médico, ou de que tenham tentado praticar. O impedimento, segundo verte dos autos, consistiu, tão somente, no dissenso. Importa ressaltar, a propósito, que, no âmbito do Estado Democrático de Direito, não há direito individual fundamental que comporte exercício absoluto, pois tal importaria em sobreposições, e consequentemente em anulações dos sobrepostos. O status diferenciado de determinado direito individual como fundamental constitui, também, seu limite, pois os direitos individuais fundamentais devem estar em equilíbrio, sem sobreposições. Na hipótese de colisão de direitos fundamentais, de garantias constitucionais, a solução está na ponderação dos mandamentos em conflito, a partir da identificação das circunstâncias do caso concreto e seus reflexos na aplicação das normas colidentes, para verificação do ponto do equilíbrio indispensável à efetividade de todas as disposições constitucionais incidentes no caso concreto. Portanto, a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença prevista pelo inc. VI do art. 5º da Const. Federal não pode ser tida como absoluta. No caso sob exame, considerada a excepcional situação de iminente risco de vida para a ofendida, o alcance do equilíbrio exigiu a prevalência do direito à vida, direito que, não é demais repetir, constitui, à evidência, pressuposto à existência e ao exercício dos demais. O reconhecimento da necessidade de prevalência do direito à vida, consideradas as especificidades presentes, não importa, em absoluto, em negação da garantia constitucional concernente à liberdade religiosa, mas em solução indispensável para se tentar evitar a negação do direito à vida à ofendida, dada a possibilidade iminente de concretização de dano irreparável, o que se apresenta como razoável no âmbito do Estado Democrático de Direito, laico por definição constitucional. É preciso anotar, ainda, que a questão de natureza religiosa, que permeia a análise do fato gerador da presente persecução penal, não é nova e foi objeto, inclusive da Resolução nº 1.021⁄80 do Conselho Federal de Medicina, cujo enunciado, em seu artigo 2º, dispõe: "Se houver iminente perigo de vida, o médico praticará a transfusão de sangue, independentemente do consentimento do paciente ou de seus responsáveis". Ante o exposto, considerando-se que, segundo os termos da inicial, o impedimento à realização da transfusão de sangue limitou-se ao dissenso dos genitores da ofendida, referendado pelo corréu, a conduta atribuída aos acusados, ora recorrentes, deve ser tida como atípica. Face ao exposto, meu voto, respeitosamente, é no sentido da absolvição dos recorrentes José Augusto Faleiros Diniz, Hélio Vitória da Silva e Ildelir Bonfim de Souza, da imputação de se acharem incursos, o primeiro no art. 121, caput , do Cód. Penal, e, os demais, como incursos no art. 121, caput , combinado com o art. 61, II, e , ambos do Cód. Penal, com fundamento no art. 415, III, do Cód. de Proc. Penal. (fls. 58-61).   Além de tal voto do Desembargador Nuevo Campos, no julgamento dos embargos infringentes, também veio no mesmo sentido o voto do Desembargador Souza Nery, verbis :   Dispõe a Constituição Federal, em seu artigo 5º, serem todos "iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade", nos termos definidos pela Carta Política naquele mesmo dispositivo, dentre os quais, de interesse para o caso dos autos, desponta o inciso VI: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção dos locais de culto e suas liturgias; Ora, se a liberdade de crença é efetivamente inviolável, não pode o cidadão, ao exercê-la, e só por exercê-la, sofrer nenhuma espécie de violação, ainda que promovida sob o manto aparente da lei. Bem a propósito do tema o ensinamento de Wilson Ricardo Ligiera, na obra "Responsabilidade Médica diante da Recusa de Transfusão de Sangue" (São Paulo: Nelpa, 2009):   O direito à prática da religião professada envolve, indubitavelmente, o direito de viver de acordo com os seus preceitos. Diante disso, por mais que não concordemos com a crença de uma pessoa, temos que respeitar as suas decisões embasadas na fé. Isso também se aplica nos casos de escolha de tratamento médico. Podemos, por exemplo, achar absurda a recusa de sangue por uma Testemunha de Jeová, ou inaceitável o comportamento de um pentecostal que não vai ao médico na crença de que Jesus irá curá-lo, ou mesmo do espírita que, ao invés de se submeter a uma cirurgia, prefere que lhe seja realizada uma "operação espiritual". O fato é que, de acordo com nosso ordenamento jurídico, pouco importa a crença da pessoa e o modo como ela decide conduzir sua vida, desde que, é claro, ela não ocasione prejuízos a terceiros, (pág. 168).   Dir-se-á, então, que o exercício da crença religiosa dos embargantes interferiu negativamente nos direitos a tratamento médico eficaz de sua filha, daí advindo a possibilidade de sua responsabilização criminal. Nem assim se lhes pode incriminar, diante da total inexistência de nexo de causalidade entre o obstáculo que pretendiam opor e a falta de tratamento adequado a ocasionar a morte da infanta. É que a recusa dos pais da infeliz vítima era absolutamente irrelevante para o atendimento médico que lhe devia ter sido prestado. O Código de Ética Médica (Resolução nº CFM 1.246⁄88, de 8 de janeiro), em seu artigo 46, proíbe o médico de "[e]fetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e consentimento prévios do paciente ou de seu representante legal, salvo iminente perigo de vida". O mesmo diploma legal, em outros dois dispositivos isenta de responsabilidade ética o profissional médico que, diante de pessoa entregue a greve de fome, intervenha para afastar o risco iminente da vida (artigo 51), e pune aquele que "desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente perigo de vida" (artigo 56) . O próprio Código Penal Brasileiro estabelece ser atípica a conduta do médico que realize intervenção, mesmo que cirúrgica, "sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida (artigo 146, § 3º, inciso I). Assim, admitir a responsabilidade penal dos embargantes corresponde a desobedecer o mandamento constitucional antes transcrito, por isso que seu ato limitou-se ao exercício de sua liberdade de crença, e no comportamento dela decorrente. Ainda uma vez destaco ser a "proibição" da transfusão de sangue oposta pelos embargantes ao tratamento de sua filha absolutamente irrelevante sob o ponto de vista legal para os médicos encarregados de atendê-la, que tinham o dever de prestar-lhe toda a assistência necessária, agindo sob o manto protetor tanto de seu próprio Código de Ética, quanto, e mais importantemente, do Código Penal Brasileiro, como demonstrei. Imperioso, no meu entendimento, portanto, aplicar ao caso dos autos o que determina o inciso III do artigo 415 do Código de Processo Penal, decretando desde logo a absolvição dos embargantes, por isso que sua conduta não constitui infração penal. Demais disso, por meu voto, e nos termos do artigo 417 do mesmo estatuto adjetivo, determinava a devolução dos autos ao representante local da sociedade, diante da clara existência de indícios de responsabilidade "de outras pessoas não incluídas na acusação". A douta maioria, no entanto, e como de costume, decidiu superiormente a questão. (fls. 114-118).   Por discordar da posição engendrada pela maioria, na origem, parto da conclusão lançada pelos dois votos vencidos, para, em seguida, edificar a minha compreensão, de que não houve fato típico a ensejar o prosseguimento da marcha processual. Imputou-se aos pacientes a prática do crime descrito do artigo 121 do Código Penal, que possui a seguinte redação: "matar alguém". Cumpre verificar se a conduta dos pacientes se amolda a tal modelo incriminador, ou, se, no contexto, em que a extinção da vida de sua filha se deu, o comportamento deles teria sido um indiferente penal. Incursiono, neste passo, em conceitos de bioética, a fim de melhor estruturar o raciocínio que, ao cabo, pretendo se cristalize em um juízo de biodireito. O primeiro princípio tradicionalmente fixado pelos estudos de bioética é o da beneficência, normalmente aliado ao da não-maleficência. Trata-se de deontologia ligada à tradicional visão hipocrática, de que ao médico incumbe o dever de fazer o bem e não causar danos. Outro primado fundamental, na matéria, é o princípio da autonomia, pelo qual é de se respeitar as decisões do paciente, concernentes ao tratamento a ser manejado. O consentimento informado é considerado, hoje, um dos grandes temas da bioética. Esclarecem os especialistas no tema que o "princípio da autonomia não deve ser confundido com o princípio do respeito da autonomia de outra pessoa. Respeitar a autonomia é reconhecer que ao indivíduo cabe possuir certos pontos de vista e que é ele quem deve deliberar e tomar decisões segundo seu próprio plano de vida e ação, embasado em crenças, aspirações e valores próprios, mesmo quando divirjam daqueles dominantes na sociedade ou daqueles aceitos pelos profissionais de saúde. O respeito à autonomia requer que se tolerem crenças inusuais e escolhas das pessoas desde que não constituam ameaça a outras pessoas ou à coletividade. Afinal, cabe sempre lembrar que o corpo, a dor, o sofrimento, a doença são da própria pessoa" ( Iniciação à bioética . Sergio Ibiapina Ferreira Costa, Gabriel Oselka, Volnei Garrafa, coordenadores. Brasília : Conselho Federal de Medicina, 1998. p. 58). De toda sorte, é crucial ter em mente que os próprios monografistas advertem que não é possível proceder à absolutização do princípio da autonomia ( Op. cit ., p. 60). Daí,  a "ação dos profissionais de saúde nas situações de emergência, em que os indivíduos não conseguem exprimir suas preferências ou dar seu consentimento, fundamentam-se no princípio da beneficência, assumindo o papel de protetor natural do paciente por meio de ações positivas em favor da vida e da saúde" ( Op cit ., p. 68). E, mais adiante, assinalam que a "compreensão jurídica prevalente e as normas de ética profissional dos médicos e dos profissionais de enfermagem apontam que no caso de iminente perigo de vida o valor da vida humana possa se sobrepor ao requerimento do consentimento e do esclarecimento do paciente (CEM, arts. 46 e 56)" ( Op. cit. , loc. cit.). Lembro, também, que, recentemente, o Conselho Federal de Medicina baixou a Resolução 1.995⁄2012, que trata das "diretivas antecipadas de vontade dos pacientes", que são definidas como "o conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade". A despeito de, à época do fatos, não se encontrar em vigor tal diretriz, presta-se ela como subsídio exegético. Ocorre que, o próprio documento reza no § 2º do artigo 2º, que o "médico deixará de levar em consideração as diretivas antecipadas de vontade do paciente ou representante que, em sua análise, estiverem em desacordo com os preceitos ditados pelo Código de Ética Médica". Nesse cenário, é fundamental não descurar de comando do Código de Ética Médica, já multicitado no feito em apreço. Refere-se ao artigo 22 do CEM (com redação atual conferida pela Res. CFM 1931⁄2009), pelo qual em situação de risco iminente de morte, o consentimento do paciente e⁄ou familiares é prescindível, sobrelevando-se o valor-matriz vida. Pois bem, conquanto reconheça-se relevo na manifestação de vontade dos pais, a exprimir certa concepção religiosa, nos estreitos lindes do caso em apreço, creio que o concurso de outras condicionantes valorativas solaparam a expressão penal de seu comportamento, despindo-o, portanto, de tipicidade. Destaco, de início, a situação de urgência. As Testemunhas de Jeová, a par da explicação religiosa, também pavimentam sua posição de vida em aspectos científicos para repudiar a transfusão de sangue. Ensina o Professor Titular da USP, Alvaro Villaça de Azevedo: "Ao optarem por tratamentos médicos alternativos, as Testemunhas de Jeová não estão abdicando de seu direito à vida. Estão exercendo o seu direito de escolha de tratamento médico, cujo fundamento é o direito à vida com dignidade; a junção do meramente existir com a liberdade e a autonomia, cujo resultado lhes confere a condição de seres humanos" (Autonomia do paciente e direito de escolha de tratamento médico sem transfusão de sangue. In: Direitos do paciente. Coordenação Álvaro Villaça Azevedo e Wilson Ricardo Ligiera. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 272). A lição do renomado civilista reforça as considerações introdutórias alinhadas neste voto, de que, levando a filha ao hospital, a conduta dos pacientes não foi direcionada ao resultado morte. Antes, buscavam salvá-la, servindo-se de tratamento infenso aos riscos transfusionais, como constou do acórdão dos embargos de declaração, fl. 110-111. Nesse panorama, ausente alternativa que pudesse tempestivamente colocar a vida da filha dos pacientes a salvo, impenderia aos médicos do hospital, passando por cima de qualquer obstáculo, materializar a intervenção que restasse. Caso assim agissem, de uma só vez, estariam dando concreção ao exercício profissional que abraçaram, ao princípio da beneficência, e, justificando a impossibilidade de aplicação tratamento alternativo, no contexto, teriam respeitado, na medida do possível, o primado da autonomia (em relação à concepção religiosa dos pais). Soma-se a este primeiro ponto, um outro que, naquele panorama, afigura-se-me de supina importância. Cuida-se do superior interesse do adolescente. Extrai-se do artigo 227 do Texto Maior, que é "dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência , discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança, do adolescente e do jovem , admitida a participação de entidades não governamentais, mediante políticas específicas" (destaquei). No artigo 7º do Estatuto da Criança e do Adolescente, estatui-se que a "criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência". Tem-se, portanto, uma preocupação normativa toda especial, conferindo-se sensível atenção à criança e ao adolescente, em diversos pontos, não sendo diferente em relação à saúde. Conferir, a propósito, a compreensão desta Corte:   PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TRATAMENTO FONOAUDIOLÓGICO  A MENOR COM LÁBIO LEPORINO. SAÚDE. DIREITO INDIVIDUAL INDISPONÍVEL. ART. 227 DA CF⁄88. LEGITIMATIO AD CAUSAM DO PARQUET. ART. 127 DA CF⁄88. ARTS. 7.º, 200, e 201 DO DA LEI N.º 8.069⁄90.   (...)   7. O direito à saúde, insculpido na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, é direito indisponíve l, em função do bem comum, maior a proteger, derivado da própria força impositiva dos preceitos de ordem pública que regulam a matéria. 8. Outrossim, a Lei n.º 8.069⁄90 no art. 7.º, 200 e 201, consubstanciam a autorização legal a que se refere o art. 6.º do CPC, configurando a legalidade da legitimação extraordinária cognominada por Chiovenda como "substituição processual". (...) (AgRg no REsp 752.190⁄RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 10⁄10⁄2006, DJ 13⁄11⁄2006, p. 231, destaquei)   Desta maneira, não obstante tratar-se dos pais ou responsáveis, a ausência de consentimento para a única saída para a preservação da vida de um adolescente, como na espécie, não representava, penso, óbice à transfusão de sangue, no horizonte descrito na denúncia. Exsurgiu, portanto, uma plêiade de fatores no período de internação retratado nos autos, a rechaçar a magnitude penal da atuação dos pacientes. Logo, se falha houve, teria sido, penso, dos médicos responsáveis pela internação, que, ausente a possibilidade de profícuo tratamento alternativo, não cumpriram com o seu dever de salvar a adolescente, com a única terapia de que dispunham. Cumpre lembrar que o próprio Código Penal afasta a responsabilidade pelo emprego de violência ou grave ameaça , a fim de viabilizar intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida - inciso I do § 3º do artigo 146 do Código Penal. Por fim, ademais de não identificar responsabilidade por parte dos pais, dadas todas essas peculiaridades, há uma faceta que muito me toca. Um viés humanitário, concernente ao sofrimento que esses pais já passaram, não só pela perda da filha (o que já não é pouco), mas, também, pelo tempo que este processo se arrasta. De pronto, verifico a impossibilidade do reconhecimento do perdão judicial, que demanda a prévia condenação. Todavia, dadas as feridas que não puderam ser cicatrizadas pelo transcurso do tempo, mas, pelo contrário, eram, frequentemente, reabertas pelo evolver processual, acredito que o atroz sofrimento amargado por toda essa via crucis já representou reprimenda mais intensa que qualquer privação de liberdade possa infligir. Por conseguinte, entendo que é possível rematar o meu raciocínio pela impossibilidade de prosseguimento deste processo à luz do conceito de culpabilidade cunhado por Claus Roxin. Segundo o magistério do Professor alemão, além de limite da pena, na aferição da culpabilidade cumpre ter como vetor político criminal a ideia de "necessidade de pena", à luz da finalidade preventiva. Ensina o doutrinador que a "fraqueza dos sistemas abstratos não está somente em sua posição defensiva contra a política criminal, mas, mais geralmente, no desprezo pelas peculiaridades do caso concreto, no fato de que, em muitos casos, a segurança jurídica seja salva à custa da justiça." ( Política criminal e sistema jurídico penal . Trad. Luís Greco. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 85). Em outro trabalho, esclarece Roxin:   O que se discute não é adequação do fim, mas a conformidade do meio ao direito; se, como afirma KANT, - e como ele grande parte da doutrina actualmente dominante - , não se pode admitir sob nenhum pretexto, por isso ser contrário à dignidade humana, que se dê valor na aplicação da lei a considerações de prevenção geral (...). Na realidade, talvez se trate apenas do poder do mais forte. A isto se acrescentará que com a fundamentação dada até agora não podemos encontrar nenhum limite à duração da pena, e, em troca, uma sanção muito rigorosa fortaleceria ainda mais claramente a inviolabilidade do ordenamento jurídico. Mas poderá realmente considerar-se conforme ao direito tal sacrifício do particular no interesse da colectividade? A resposta negativa a esta pergunta está fora de dúvida depois do que já dissemos na nossa breve abordagem histórica. Um ordenamento jurídico para o qual o particular não é objecto, mas sim o titular do poder estatal, não o pode desvirtuar convertendo-o em meio de intimidação. (...) Assim, com estas reflexões, encontra-se aberto o caminho para a solução do problema: a aplicação da pena estará justificada se se conseguir harmonizar a sua necessidade para a comunidade jurídica com a autonomia da personalidade do delinquente, que o direito tem de garantir. (...) Em contrapartida, uma teoria unificadora dialéctica, como a que aqui se defende, pretende evitar os exageros unilaterais e dirigir os diversos fins da pena para vias socialmente construtivas, conseguindo o equilíbrio de todos os princípios, mediante restrições recíprocas. (...) A culpa não justifica a pena por si só, podendo unicamente permitir sanções no domínio do imprescindível por motivos de prevenção geral e enquanto não impeça que a execução da pena se conforme ao aspecto da prevenção especial. (...) Esta dupla polaridade entre indivíduo e colectividade, e também entre o fenómeno empírico e a ideia de homem, constitui o ponto de tensão de qualquer problemática social, que em cada caso também se representa na sua totalidade por uma fragmentação como aquela que o direito penal contém. Uma teoria da pena que não pretenda manter-se na abstracção ou em propostas isoladas, mas que tenha como objectivo corresponder à realidade, tem de reconhecer estas antíteses inerentes a toda a existência social para, de acordo com o princípio dialéctico, poder superá-las numa fase superior; ou seja, tem de criar uma ordem que demonstre que, na realidade, um direito penal só pode fortalecer a consciência jurídica da generalidade no sentido da prevenção geral se ao mesmo tempo preservar a individualidade de quem a ele está sujeito; que o que a sociedade faz pelo delinquente também é afinal o mais proveitoso para ela. (...) Deste modo, como também ARTHUR KAUFMANN concorda, os autores do Projecto Alternativo desenvolveram de comum acordo tal ideia, consagrada no § 59, 2, do P. A.: "apenas se aplicará integralmente a medida da culpa determinada pelo facto, quando a reintegração do sujeito na comunidade jurídica ou a protecção dos bens jurídicos o requeiram". ( Problemas fundamentais de direito penal . Trad. Ana Paula dos S. L. Natscheradetz. Lisboa: 1986, p. 34-46). Por seu turno, mas na mesma linha, Jesús-María Silva Sánchez pontifica que a culpabilidade deriva "de uma síntese de fins preventivos, outros fins utilitários opostos à intervenção e fins garantísticos" ( Aproximación al derecho penal contemporáneo . Barcelona: Bosh, 1992, p. 252). E prossegue, aduzindo que a "finalidade garantística é própria dos princípios de igualdade, proporcionalidade e humanidade, assim como de ressocialização. Dada uma situação de anormalidade do sujeito ou da situação que o rodeia, que possa repercutir em uma deficiente motivação normativa, tais princípios demandam a exclusão, ou ao menos, a diminuição da responsabilidade penal. A solução definitiva, todavia (não-punição, atenuação, punição) depende de uma síntese histórica (suscetível de variação) das pretensões dali derivadas (que, em sua tradução concreta, logicamente variam com o tempo) e das necessidades preventivas (também variáveis)" ( Op. cit. , loc. cit. ). Ante o exposto, não conheço da ordem, mas expeço habeas corpus de ofício para extinguir a ação penal em relação aos pacientes. É como voto.
Documento: 33010937 RELATÓRIO, EMENTA E VOTO
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