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29 de Junho de 2022
  • 2º Grau
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Superior Tribunal de Justiça
há 5 anos

Detalhes da Jurisprudência

Processo

REsp 1274639 SP 2011/0145335-2

Órgão Julgador

T4 - QUARTA TURMA

Publicação

DJe 23/10/2017

Julgamento

12 de Setembro de 2017

Relator

Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO

Documentos anexos

Inteiro TeorSTJ_RESP_1274639_d595b.pdf
Certidão de JulgamentoSTJ_RESP_1274639_a0171.pdf
Relatório e VotoSTJ_RESP_1274639_14b6c.pdf
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Relatório e Voto

Superior Tribunal de Justiça
Revista Eletrônica de Jurisprudência
  Vistos, etc RECURSO ESPECIAL Nº 1.274.639 - SP (2011⁄0145335-2) RECORRENTE : L DE C F ADVOGADO : ALESSANDRA RUGAI BASTOS E OUTRO(S) - SP139133 RECORRIDO : C R O N ADVOGADO : RENATO DE BARROS PIMENTEL  - SP049505   RELATÓRIO  

O EXMO. SR. MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO (Relator):

 

1. L. de C. F. ajuizou, em 11.07.2006, ação de prestação de contas em face de C. R. O. N., com quem era casada em regime de comunhão universal de bens. Narrou que, após quase vinte e dois anos de casamento, fora decretada, em 05.05.2000, a separação de corpos do casal. Aduziu que, em 19.04.2001, após o ajuizamento de ação de separação litigiosa, as partes acordaram em convertê-la em consensual, estipulando a guarda e visitação das filhas comuns (menores à época), renunciando, reciprocamente, aos alimentos para si mesmos e relegando para decisão em juízo sucessivo a partilha do acervo comum.

Alegou que, em 2001, deduzira pedido de abertura de partilha dos bens comuns, processada sob a forma de inventário. Afirmou ter declinado do exercício da inventariança, a qual ficara a cargo do ex-esposo, quem sempre conduzira e administrara o patrimônio do casal.

Sustentou que, "decorridos mais de cinco anos de exercício do encargo, jamais prestou o requerido, voluntariamente, contas de sua administração, dever esse que lhe compete, nos termos da legislação vigente, sendo direito da requerente a verificação completa da administração do acervo que também lhe pertence por força do regime de bens" (fl. 5). Aduziu "que o patrimônio das partes é expressivo, composto, substancialmente, de participações societárias, imóveis e ativos financeiros, que geram notáveis rendimentos, dos quais nunca teve a requerente, em mais de seis anos de separação, notícia" (fl. 5). Assinalou que, "a despeito de ocultar as receitas, insiste o requerido em cobrar as despesas do patrimônio, em sua maioria indevidas, promovendo, para tanto, aquilo que, precariamente, denomina 'incidente de divisão de despesas'", em trâmite no mesmo juízo da ação principal (fl. 5). Afirmou que o referido incidente somente aponta as supostas despesas havidas, sem a equivalente demonstração das receitas, com a respectiva compensação, "o que seria de rigor, a fim de demonstrar a existência de crédito em favor de uma das partes, notadamente porquanto, ao que tudo indica, os frutos advindos dos bens comuns dariam conta, à larga, das despesas incorridas mês a mês" (fls. 5⁄6).

Afinal, a autora requereu: (i) a procedência da pretensão, "determinando-se a prestação de contas pelo requerido referente ao período em que administrou os bens comuns, seja na qualidade de administrador provisório (janeiro de 2000 a novembro de 2001), seja na condição de inventariante (novembro de 2001 até a presente data)"; e (ii) fosse "determinado expressamente ao requerido que as contas devidas devem ser apresentadas na forma mercantil, acompanhadas de todos os documentos que comprovem os lançamentos almejados (extratos bancários, contratos e recibos de locação, arrendamento, boletins de distribuição de lucros⁄dividendos, etc.)" (fl. 13).

O réu apresentou contestação (fls. 201⁄205), aduzindo: (i) inexistir "qualquer interesse da varoa ou do Juízo na imediata prestação de contas da inventariança, haja vista a transparência e o regular exercício comprovado, bem como ainda não se vislumbrar próximo o encerramento da partilha"; e (ii) que eventual prestação de contas sobre gerência de bens comuns do ex-casal deve restringir-se ao período da inventariança.

O magistrado de piso julgou procedente a pretensão deduzida na inicial, a fim de condenar o réu "a prestar contas, na forma mercantil, da administração do patrimônio comum referente ao período compreendido entre os meses de janeiro de 2000 e julho de 2006, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, sob pena de não lhe ser lícito impugnar as que a autora apresentar, nos termos previstos no § 2º do artigo 915 do CPC" (fl. 222). Os honorários advocatícios foram arbitrados em R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais).

Irresignado, o réu interpôs apelação, a qual foi provida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, a fim de julgar extinta a ação de exigir contas, nos termos da seguinte ementa:

Prestação de contas entre ex-cônjuges que foram casados no regime de comunhão universal - Embora caiba, em tese, o dever de prestar contas daquele que assume a administração dos bens comuns, o exercício somente produz a obrigação de prestar contas, em forma mercantil, se o ex-cônjuge que pleiteia provar que deseja construir título executivo (artigo 918, do CPC) ou provar malversação de bens para mudar o administrador (artigo 1.663, § 3º, do CC), sob pena de se admitir mais um incidente entre as dezenas de ações e incidentes pela litigiosidade ferrenha derivada da separação, sem partilha - Provimento para julgar extinta, sem resolução de mérito, a ação.  

Opostos embargos de declaração pela autora, os quais foram rejeitados na origem.

Nas razões do especial, fundado nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, a ora recorrente aponta, além de dissídio jurisprudencial, violação dos artigos 128, 131, 458, inciso II, 535, inciso II, 986 e 991, inciso VII, do CPC de 1973.

Sustenta, em síntese, que o gestor de bem alheio (no caso, o ex-cônjuge que se encontra na exclusiva administração do patrimônio comum) tem a obrigação legal de prestar contas.

Enfatiza que, "ainda que efetivamente não tivesse detalhado suas dúvidas e receios quanto à condição do patrimônio - o que não ocorreu, como a simples leitura da inicial revela -, tal jamais poderia dar ensejo à conclusão de que não possui C. N. o dever de prestar contas da gestão que vem desempenhando do patrimônio comum" (fl. 445).

Subsidiariamente, aduz a nulidade do acórdão, por ter sido proferido julgamento divorciado da realidade dos autos (ante a existência, na inicial, de justificativa expressa para a prestação de contas) ou por negativa de prestação jurisdicional, uma vez não supridos os vícios suscitados nos aclaratórios rejeitados.

Apresentadas contrarrazões às fls. 561⁄577.

O apelo recebeu crivo negativo de admissibilidade na origem, mas, por força do provimento do AgRg no Ag 1.321.854⁄SP, os autos foram convertidos em recurso especial.

O Ministério Público Federal apresentou parecer às fls. 702⁄708, opinando pelo conhecimento parcial e provimento do reclamo, nos seguintes termos:

RECURSO ESPECIAL PELAS ALÍNEAS "A" E "C" DO PERMISSIVO CONSTITUCIONAL – AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS INTENTADA EM FACE DE EX-CÔNJUGE, INVENTARIANTE DO PROCEDIMENTO DE PARTILHA EM SEPARAÇÃO JUDICIAL – ALEGAÇÃO DE OFENSA AOS ARTS. 128; 131; 458, II; 535, II; 986 e 991, VII; TODOS DO CPC – ACÓRDÃO QUE EXTINGUIU O FEITO SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO POR AUSÊNCIA DE INTERESSE PROCESSUAL – INOCORRÊNCIA DE OFENSA AOS ARTS. 986 E 991, VII, DO CPC – OCORRÊNCIA DE OFENSA QUANTO AOS DEMAIS ARTIGOS, UMA VEZ QUE O ARESTO OBJURGADO PARTIU NOTORIAMENTE DE PREMISSAS EQUIVOCADAS A RESPEITO DA EXORDIAL DA RECORRENTE – NECESSIDADE DE ANULAÇÃO DO ACÓRDÃO PARA QUE OUTRO SEJA PROFERIDO, À LUZ DAS CIRCUNSTÂNCIAS POSTAS A EXAME – PARECER PELO PARCIAL CONHECIMENTO, E NESSA EXTENSÃO, PELO PROVIMENTO DO RECURSO.  

É o relatório.

RECURSO ESPECIAL Nº 1.274.639 - SP (2011⁄0145335-2) RELATOR : MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO RECORRENTE : L DE C F ADVOGADO : ALESSANDRA RUGAI BASTOS E OUTRO(S) - SP139133 RECORRIDO : C R O N ADVOGADO : RENATO DE BARROS PIMENTEL  - SP049505 EMENTA  

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS. BENS E DIREITOS EM ESTADO DE MANCOMUNHÃO (ENTRE A SEPARAÇÃO DE FATO E A EFETIVA PARTILHA). PATRIMÔNIO COMUM ADMINISTRADO EXCLUSIVAMENTE POR EX-CÔNJUGE.

1. A ação de prestação de contas tem por escopo aclarar o resultado da administração de negócios alheios (apuração da existência de saldo credor ou devedor) e, sob a regência do CPC de 1973, ostentava caráter dúplice quanto à sua propositura, podendo ser deduzida tanto por quem tivesse o dever de prestar contas quanto pelo titular do direito de exigi-las. O Novo CPC, por seu turno, não mais prevê a possibilidade de propositura de ação para prestar contas, mas apenas a instauração de demanda judicial com o objetivo de exigi-las (artigo 550).

2. Assim como consagrado jurisprudencialmente sob a égide do CPC de 1973, o Codex de 2015 explicitou o dever do autor de, na petição inicial, especificar, detalhadamente, as razões pelas quais exige as contas, instruindo-a com documentos comprobatórios dessa necessidade, se existirem. São as causas de pedir remota e próxima, as quais devem ser deduzidas, obrigatoriamente, na exordial, a fim de demonstrar a existência de interesse de agir do autor.

3. Como de sabença, a administração do patrimônio comum do casal compete a ambos os cônjuges (artigos 1.663 e 1720 do Código Civil). Nada obstante, a partir da separação de fato ou de corpos (marco final do regime de bens), os bens e direitos dos ex-consortes ficam em estado de mancomunhão - conforme salienta doutrina especializada -, formando uma massa juridicamente indivisível, indistintamente pertencente a ambos.

4. No presente caso, consoante reconhecido na origem, a separação de fato do casal (que adotara o regime de comunhão universal de bens) ocorreu em janeiro de 2000, tendo sido decretada a separação de corpos em 05.05.2000, no âmbito de ação cautelar intentada pela ex-esposa. Posteriormente, foi proposta ação de separação judicial litigiosa que, em 19.04.2001, foi convertida em consensual. A divisão do acervo patrimonial comum, por sua vez, foi objeto de ação própria, ajuizada em maio de 2001, processada sob a forma de inventário. Revela-se, outrossim, incontroverso que os bens e direitos comuns do casal sempre estiveram sob a administração exclusiva do ex-marido, que, em 27.11.2001, veio a assumir o encargo de inventariante do patrimônio.

5. Em caráter geral, a jurisprudência desta Corte já consagrou o entendimento de que a prestação de contas é devida por aqueles que administram bens de terceiros, não havendo necessidade de invocação de qualquer motivo para o interessado tomá-la.

6. No tocante especificamente à relação decorrente do fim da convivência matrimonial, infere-se que, após a separação de fato ou de corpos, o cônjuge que estiver na posse ou na administração do patrimônio partilhável - seja na condição de administrador provisório, seja na de inventariante - terá o dever de prestar contas ao ex-consorte. Isso porque, uma vez cessada a afeição e a confiança entre os cônjuges, aquele titular de bens ou negócios administrados pelo outro tem o legítimo interesse ao pleno conhecimento da forma como são conduzidos, não se revelando necessária a demonstração de qualquer irregularidade, prejuízo ou crédito em detrimento do gestor.

7. Recurso especial provido para restabelecer a sentença de procedência.

VOTO  

O EXMO. SR. MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO (Relator):

 

2. A presente controvérsia está em definir se há dever de prestação de contas entre ex-cônjuges em relação aos bens e direitos em estado de mancomunhão (entre a separação de fato e a efetiva partilha).

O magistrado de piso, ao julgar procedente a pretensão de exigir contas deduzida pela ex-esposa, assim consignou:

Cuida-se de demanda promovida pela requerente em face de seu ex-cônjuge visando prestação de contas relativa à administração do patrimônio comum a partir da data da separação de fato do casal, ocorrida no mês de janeiro de 2000. (...) No caso em tela, as partes eram casadas pelo regime da comunhão universal de bens e desde a separação de fato o patrimônio comum passou a ser administrado exclusivamente pelo varão - fato este, aliás, não negado pelo requerido. Por estar na posse e administração do patrimônio partilhável assumiu o demandado o cargo de administrador provisório até sua investidura no cargo de inventariante. A condição de administrador provisório é uma situação de fato, posteriormente validada, sob o prisma jurídico, com a nomeação para a inventariança (...). O fato de ser um encargo pré-processual não exime o requerido de prestar contas de sua gestão, uma vez que os bens integrantes do patrimônio comum estavam sob seus cuidados. Referido dever decorre da regra insculpida no artigo 985 do Código de Processo Civil: "O administrador provisório representa ativa e passivamente o espólio, é obrigado a trazer ao acervo os frutos que desde a abertura da sucessão percebeu, tem direito ao reembolso das despesas necessárias e úteis que fez e responde pelo dano a que, por dolo ou culpa, der causa". Por conseguinte, ao contrário do alegado na contestação, o requerido tem o dever legal de prestar contas referente ao período compreendido entre a separação de fato do casal e sua nomeação para a inventariança. (...) Por outro lado, também se revela inconteste a obrigação do suplicado prestar contas de sua gestão após sua investidura no cargo de inventariante. O fato de o varão considerar transparente e regular sua administração e não vislumbrar a proximidade do encerramento da partilha dos bens comuns não o exonera desta obrigação. De fato, a requerente tem o direito de requerer, a qualquer momento, e não somente por ocasião do término da partilha, esclarecimentos minudentes a respeito do estado em que se encontram as relações contrapostas de débito e crédito entre as partes. Ante o exposto, JULGO PROCEDENTE a pretensão inicial, para o fim de condenar o requerido C. R. O. N. a prestar contas, na forma mercantil, da administração do patrimônio comum referente ao período compreendido entre os meses de janeiro de 2000 e julho de 2006, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, sob pena de não lhe ser lícito impugnar as que a autora apresentar, nos termos previstos no § 2º do artigo 915 do Código de Processo Civil.  

O Tribunal de origem, por sua vez, deu provimento ao recurso de apelação do réu, a fim de julgar extinta a ação de prestação de contas, pelos seguintes fundamentos:

A ação de prestação de contas serve para uma finalidade específica, qual seja, a de construir título executivo (artigo 918, do CPC). Trata-se de um mecanismo apropriado para conferir os resultados de uma relação de confiança ou de comunhão patrimonial, para que aquele que administra ou zele dos interesses de outrem, prove a regularidade da administração. Não é diferente quando ex-cônjuges se separam e um deles administra os bens comuns, competindo a quem se encarregou desse encargo prestar as contas, distribuindo os dividendos respectivos ou exigindo as quotas respectivas para superação das dívidas, em casos de bens deficitários. No caso de bens administrados em virtude do casamento, a prestação de contas poderá servir para mudar o administrador, se for confirmada a malversação dos bens (artigo 1.663, § 3º, do CC). Os litigantes foram casados no regime de comunhão universal e alguns bens não foram partilhados e essa circunstância impede que se coloque fim à indivisibilidade (artigos 1.575 e 1.576, do CC, de 2002). Porém e em virtude da vontade das partes quanto à preservação da comunhão apesar da total ausência da affectio maritalis , cabe aplicar o regime de condomínio ( universitas juris ) e empenhar o administrador a prestar contas desde quando ocorreu a ruptura da vida em comum (separação de fato). A data da separação ganha importância para impedir a comunicabilidade dos bens adquiridos em data posterior, mas não tem pertinência para excluir a responsabilidade do cônjuge que administra o bem comum. O artigo 1.671, do CC, é bem claro em definir que a comunhão somente termina com a divisão. O varão ingressou com pedido de prestação de contas denunciando dívidas de bem comum e o procedimento foi oportuno para distinguir os direitos e deveres de cada qual, conforme disposto no artigo 1.666, do CC. A autora, no entanto, não esclarece se a administração do varão é lucrativa ou desastrosa, se lhe paira alguma dúvida ou se há necessidade de tornar transparente circunstâncias que foram omitidas a partir do momento em que os cônjuges perderam a afeição e a administração comum. Cabe perguntar: qual o sentido de exigir que o varão apresente contas? Pelo que se apurou, nada foi impugnado em relação ao sistema de administração das propriedades rurais, em virtude de contratos de arrendamento que simplificam o exame da contabilidade. Quanto a direitos decorrentes de ações ou quotas de sociedades empresárias, a questão não é propriamente de administração de patrimônio de bens de casal, mas, sim, de direito societário, devendo o sócio exigir, no âmbito da sociedade, as prestações de contas da administração empresária. A ação deveria ser extinta sem resolução de mérito, na forma do artigo 267, VI, do CPC. A autora não busca constituir titulo executivo, porque não fundamenta a sua pretensão na conduta temerária do ex-marido e que poderia acarretar crédito para seu patrimônio . Era mister que indicasse em que consiste o seu prejuízo (ou provável dano) pela administração individual, explicando as razões para que o Judiciário abrisse as portas da ação específica para esse fim, porque quando cônjuges estão em ferrenha litigiosidade, com ações paralelas, o exame do interesse patrimonial e moral deve ser filtrado em exame rigoroso, sob pena de a tolerância permitir que o procedimento se transforme em palco de acirramento da animosidade, sem qualquer sentido prático ou produtivo. Por outro lado, não deseja a mulher (pelo menos não consta fundamento desse tipo) assumir a administração, o que faz descartável a tese de que a prestação de contas serviria para declarar um fato digno de motivação de futuro pedido de modificação do cargo de administração. Assim e porque em relação as quotas e ações das sociedades mencionadas, cabe à sócia exercer seus direitos de acordo com as regras das sociedades e dos estatutos da empresa, não poderia a ação de prestação de contas ser admitida para obrigar o requerido a apresentar balanços contábeis para qualquer resultado concreto. (grifei)  

Destarte, exsurge, da moldura fática, que houve a separação de fato do casal em janeiro de 2000, sendo também inconteste que o patrimônio em mancomunhão é expressivo (participações societárias, imóveis e ativos financeiros), e desde sempre foi gerido exclusivamente pelo varão, que, inclusive, ao que se percebe nos autos, permanece com a inventariança formal do acervo até a data de hoje.

3. Nesse passo, o cabimento da ação de prestação de contas e a sua respectiva legitimidade ad causam eram assim definidos no artigo 914 do CPC de 1973, verbis:

Art. 914. A ação de prestação de contas competirá a quem tiver: I - o direito de exigi-las; II - a obrigação de prestá-las.  

Como de sabença, a ação de prestação de contas tem por escopo aclarar o resultado da administração de negócios alheios (apuração da existência de saldo credor ou devedor) e, sob a regência do CPC de 1973, ostentava caráter dúplice quanto à sua propositura, podendo ser deduzida tanto por quem tivesse o dever de prestar contas quanto pelo titular do direito de exigi-las.

Nesse contexto, o dever de prestar contas incumbia àquele que administrava bens ou interesses alheios, ao passo que o direito de exigi-las cabia àquele em favor do qual os negócios haviam sido geridos. A apuração de saldo credor, em favor de uma das partes, implicava a prolação de sentença condenatória em detrimento do devedor.

O Novo CPC, por seu turno, não mais prevê a possibilidade de propositura de ação para prestar contas, mas apenas a instauração de demanda judicial com o objetivo de exigi-las (artigo 550). Nada obstante, não se discute o fato de persistir a natureza dúplice da demanda, pois, "uma vez apurada a existência de saldo devedor em favor do autor da ação, será o réu condenado a pagar; mas verificado que o credor é o réu, o autor da demanda será condenado a pagar ao réu o saldo devedor" (NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo código de processo civil comentado artigo por artigo. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 978).

Importante destacar ainda que, assim como consagrado jurisprudencialmente sob a égide do CPC de 1973, o Codex de 2015 explicitou o dever do autor de, na petição inicial, especificar, detalhadamente, as razões pelas quais exige as contas, instruindo-a com documentos comprobatórios dessa necessidade, se existirem. São as causas de pedir remota e próxima, as quais devem ser deduzidas, obrigatoriamente, na exordial, a fim de demonstrar a existência de interesse de agir do autor.

4. Outrossim, é consabido que a administração do patrimônio comum do casal compete a ambos os cônjuges (artigos 1.663 e 1720 do Código Civil).

Nada obstante, a partir da separação de fato ou de corpos (marco final do regime de bens), os bens e direitos dos ex-consortes ficam em estado de mancomunhão - conforme salienta doutrina especializada -, formando uma massa juridicamente indivisível, indistintamente pertencente a ambos.

Sobre o tema, confiram-se os seguintes excertos doutrinários:

MANCOMUNHÃO - É a expressão que define o estado dos bens conjugais antes de sua efetiva partilha. Difere do estado condominial, em que o casal detém o bem ou coisa simultaneamente, com direito a uma fração ideal, podendo alienar ou gravar seus direitos, observando a preferência do outro. Na mancomunhão, o bem não pode ser alienado nem gravado por apenas um dos ex-cônjuges, permanecendo indivisível até a partilha. Enquanto não for feita a partilha dos bens comuns, eles pertencem a ambos os cônjuges em estado de mancomunhão . (PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Dicionário de direito de família e sucessões . São Paulo: Saraiva, 2015, p. 447) -------------------------------------------------------------- (...) em todos os regimes de bens, exceto no regime da separação convencional de bens (CC 1.687), a dissolução do casamento gera efeitos econômicos. Existindo patrimônio, é necessária sua partilha. (...) Quando na separação consensual, os cônjuges não chegam a um consenso sobre o destino do acervo comum, a partilha dos bens seguirá o rito do inventário e do arrolamento (CPC, 1.121, § 1º, e 1.031). Aplicável tal dispositivo também para a hipótese de separação judicial litigiosa e de ação de divórcio. Havendo consenso sobre a partilha, esta poderá ser feita por escritura pública (CPC 1.124-A). Existindo divergências em torno da natureza, qualidade e quantidade de bens, necessária, antes do inventário, a liquidação dos artigos (CPC 475-E e 475-F). Como o rito do inventário e do arrolamento não comporta questões de alta indagação (CPC 982 a 1.045), usualmente se relega a identificação do patrimônio a ser partilhado para a fase de liquidação de sentença. (...) Depois da separação de fato, da separação jurídica ou do divórcio, sem a realização de partilha, os bens permanecem em estado de mancomunhão, expressão corrente na doutrina, que, no entanto, não dispõe de previsão legal. De qualquer sorte, quer dizer que os bens pertencem a ambos os cônjuges ou companheiros em "mão comum". Tal distingue-se do condomînio: situação em que o poder de disposição sobre a coisa está nas mãos de vários sujeitos simultaneamente. Esta possibilidade não existe na comunhão entre cônjuges, conviventes e herdeiros. Nenhum deles pode alienar ou gravar a respectiva parte indivisa (CC 1.314) e só pode exigir sua divisão (CC 1.320) depois da partilha. (DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias . São Paulo: RT, 2009, p. 299-301)  

5. No presente caso, consoante reconhecido na origem, a separação de fato do casal (que adotara o regime de comunhão universal de bens) ocorreu em janeiro de 2000, tendo sido decretada a separação de corpos em 05.05.2000, no âmbito de ação cautelar intentada pela ex-esposa.

Posteriormente, foi proposta ação de separação judicial litigiosa que, em 19.04.2001, foi convertida em consensual. A divisão do acervo patrimonial comum, por sua vez, foi objeto de ação própria, ajuizada em maio de 2001, processada sob a forma de inventário.

Revela-se, ainda, incontroverso nos autos que os bens e direitos comuns do casal sempre estiveram sob a administração exclusiva do ex-marido, que, em 27.11.2001, veio a assumir o encargo de inventariante do patrimônio.

5.1. Importante assinalar que todas as demandas judiciais referidas correm em segredo de justiça, não tendo sido noticiada a superveniência da partilha formal dos bens comuns por qualquer uma das partes. Desse modo, deve-se inferir que, até a presente data, o acervo patrimonial permanece em estado de mancomunhão.

Nada obstante, mesmo se "o estado das coisas" já estivesse alterado - o que, repita-se, não se tem notícia nos autos -, cumpre destacar exegese perfilhada pela Segunda Seção, no sentido da irrelevância da distinção doutrinária entre o estado de mancomunhão e o condomínio advindo da ultimação da partilha, quando determinado bem de propriedade comum estiver sob o gozo exclusivo de um dos ex-cônjuges:

Deveras, o que importa no caso não é o modo de exercício do direito de propriedade , se comum ou exclusivo ("mancomunhão" ou condomínio), mas, sim, a relação de posse mantida com o bem, se comum do casal ou exclusiva de um dos ex-cônjuges. Ou seja, o fato gerador da indenização não é a propriedade, mas, sim, a posse exclusiva do bem no caso concreto. Logo, o fato de certo bem comum aos ex-cônjuges ainda pertencer indistintamente ao casal, por não ter sido formalizada a partilha, não representa empecilho automático ao pagamento de indenização pelo uso exclusivo por um deles, sob pena de gerar enriquecimento ilícito. ( REsp 1.250.362⁄RS , Rel. Ministro Raul Araújo, Segunda Seção, julgado em 08.02.2017, DJe 20.02.2017)  

Eis a ementa do aludido julgado:

RECURSO  ESPECIAL.  CIVIL.  FAMÍLIA. DIVÓRCIO. PARTILHA. INDENIZAÇÃO PELO  USO  EXCLUSIVO  DE IMÓVEL DE PROPRIEDADE COMUM DOS EX-CÔNJUGES AINDA  NÃO  PARTILHADO  FORMALMENTE.  POSSIBILIDADE  A  DEPENDER DAS CIRCUNSTÂNCIAS DO CASO CONCRETO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1.  Na separação e no divórcio, sob pena de gerar enriquecimento sem causa, o fato de certo bem comum ainda pertencer indistintamente aos ex-cônjuges, por não ter sido formalizada a partilha, não representa automático  empecilho ao pagamento de indenização pelo uso exclusivo do bem por um deles, desde que a parte que toca a cada um tenha sido definida por qualquer meio inequívoco. 2.  Na hipótese dos autos, tornado certo pela sentença o quinhão que cabe  a cada um dos ex-cônjuges, aquele que utiliza exclusivamente o bem comum deve indenizar o outro, proporcionalmente. 3. Registre-se que a indenização pelo uso exclusivo do bem por parte do alimentante pode influir no valor da prestação de alimentos, pois afeta   a   renda   do   obrigado,   devendo   as  obrigações  serem reciprocamente  consideradas  pelas  instâncias ordinárias, sempre a par das peculiaridades do caso concreto. 4.  O  termo inicial para o ressarcimento deve ser a data da ciência do pedido da parte contrária, que, no caso, deu-se com a intimação. 5. Recurso especial provido.  

No citado precedente, privilegiou-se a necessidade de se afastar o enriquecimento sem causa de um cônjuge em detrimento do outro, independentemente da efetiva indivisibilidade do patrimônio comum, quando constatada a posse exclusiva de um deles.

5.2. Nesse contexto, deve-se aferir a existência ou não de interesse de agir da ex-esposa que ajuizou ação de prestação de contas em face do ex-marido, deduzindo a seguinte causa de pedir:

Decorridos mais de cinco anos de exercício do cargo, jamais prestou o requerido voluntariamente contas de sua administração, dever esse que lhe compete, nos termos da legislação vigente, sendo direito da requerente a verificação completa da administração do acervo que também lhe pertence por força do regime de bens . Igualmente não prestou contas o requerido no que diz com o período anterior à sua nomeação para o cargo de inventariante , na medida em que, já em janeiro de 2000, quando a ruptura do casamento e a separação de fato das partes se deram, antes mesmo da medida liminar de separação de corpos - havida em maio daquele ano -, Carlos administrava, sem dar qualquer satisfação à ex-mulher, o patrimônio comum. É certo, nesse passo, que o patrimônio das partes é expressivo, composto substancialmente de participações societárias, imóveis e ativos financeiros (conforme primeiras declarações apresentadas - doc. 06), que geram notáveis rendimentos, dos quais nunca teve a requerente, em mais de seis anos de separação, noticia. A despeito de ocultar as receitas, insiste o requerido em cobrar as despesas do patrimônio, em sua maioria indevidas, promovendo, para tanto, aquilo que precariamente denomina "incidente de divisão de despesas" em trâmite igualmente perante esse D. Juízo. O incidente em comento aponta somente as supostas despesas havidas, sem a equivalente demonstração das receitas, com a respectiva compensação, o que seria de rigor, a fim de demonstrar a existência de crédito em favor de uma das partes, notadamente porquanto, ao que tudo indica, os frutos advindos dos bens comuns dariam conta, à larga, das despesas incorridas mês a mês. Não havendo outra forma de obter as pretendidas contas, na medida em que o requerido apenas se presta a cobrar da requerente quantias indevidas - sem declinar a real situação patrimonial das partes, e das receitas dos bens -, necessária se faz a propositura do presente feito, a fim de que Vossa Excelência determine a imediata prestação de contas da administração exercida pelo requerido, não só a partir da sua nomeação para o cargo de inventariante, como igualmente desde a separação fática das partes, havida em janeiro de 2000, quando o requerido assumiu a administração provisoria dos bens comuns. (...) Não obstante e a atestar a sua qualidade de administrador provisório, importa salientar que antes de assumir o cargo de inventariante, o requerido chegou a dispor de bens comuns, transferindo expressivos valores das contas mantidas pelo casal (doc. 10), bem como alienando participações acionárias (doc. 11), sem qualquer explicação ou anuência da requerente, dentre outros atos que demonstram a sua efetiva condução do patrimônio, ainda antes de assumir a inventariança. De fato, depreende-se dos documentos acostados que, de março de 2000 a outubro daquele ano, o requerido vendeu diversas ações do casal. Tais atos de disposição foram confirmados por ele próprio no incidente de arrolamento de bens havido entre as partes (cf. doc. 11): (...) No que diz respeito às contas e numerários titulados pelas partes, as movimentações - estranhas e atípicas - efetuadas pelo requerido após a separação das partes demonstram que era ele quem estava à frente dos negócios, conhecedor que sempre foi do patrimônio e suas especificidades (cf. doc. 10). A propósito, as movimentações havidas nas contas igualmente demandam explicações, na medida em que se mostram excessivas e inexplicáveis as retiradas de dinheiro das contas-correntes do ex-casal. Nesse ponto se faz, uma vez mais, necessária a devida prestação de contas. (grifei)  

No ponto, em caráter geral, a jurisprudência desta Corte já consagrou o entendimento de que a prestação de contas é devida por aqueles que administram bens de terceiros, não havendo necessidade de invocação de qualquer motivo para o interessado tomá-la.

A propósito:

PRESTAÇÃO DE CONTAS DEVIDA POR QUANTOS ADMINISTRAM BENS DE TERCEIROS, AINDA QUE NÃO EXISTA MANDATO. ( AgRg no Ag 33.211⁄SP , Rel. Ministro Eduardo Ribeiro, Terceira Turma, julgado em 13.04.1993, DJ 03.05.1993) ------------------------------------------------------------------   AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS. INVENTARIANTE. LEGITIMIDADE DE PARTE E LEGÍTIMO INTERESSE. FUNDAMENTAÇÃO DO JULGADO. OMISSÃO E CONTRADIÇÃO INEXISTENTES. INÉPCIA DA INICIAL AFASTADA. (...) – A ação de prestação de contas é devida por quantos administram bens de terceiro. – Inépcia da petição inicial bem afastada. Recurso especial não conhecido. ( REsp 364.835⁄SP , Rel. Ministro Barros Monteiro, Quarta Turma, julgado em 02.12.2004, DJ 14.03.2005) ------------------------------------------------------------------   DIREITO PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS. CONTRATOS ENVOLVENDO SÓCIOS OU QUOTISTAS. LEGITIMIDADE. - A obrigação de prestar contas não é apenas do mandatário ou do sócio com poderes de administração ou de gerência, mas de todos aqueles que administrem bens ou valores de terceiros. - Quotista que participa de contrato de transferência de quotas de outros sócios deve prestar contas a estes dos valores recebidos por conta do contrato, ainda que não tenha poderes de administração ou de gerência dentro da empresa. Recurso especial conhecido e provido. ( REsp 623.132⁄PR , Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 15.12.2005, DJ 01.02.2006) ------------------------------------------------------------------   AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC. NÃO OCORRÊNCIA. OFENSA ARTS. 914 DO CPC, 668 DO CC E 26 DA LEI N. 8.906⁄94. ALEGAÇÕES NÃO EXAMINADAS PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 211⁄STJ E 282⁄STF. DEVER DE PRESTAÇÃO DE CONTAS POR QUEM ADMINISTRA BENS DE TERCEIROS. POSSIBILIDADE. PRECEDENTES. RECURSO IMPROVIDO. (...) 3. A jurisprudência desta eg. Corte firmou-se no sentido de que "a prestação de contas é devida por quantos administram bens de terceiros" (REsp 327.363⁄RS, Rel. Ministro BARROS MONTEIRO, QUARTA TURMA, julgado em 4⁄12⁄2003, DJ de 12⁄4⁄2004, p. 212). 4. Agravo regimental a que se nega provimento. ( AgRg no AREsp 796.933⁄RS , Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 15.12.2015, DJe 03.02.2016)  

No tocante especificamente à relação decorrente do fim da convivência matrimonial, infere-se que, após a separação de fato ou de corpos, o cônjuge que estiver na posse ou na administração do patrimônio partilhável - seja na condição de administrador provisório, seja na de inventariante - terá o dever de prestar contas ao ex-consorte.

Isso porque, uma vez cessada a afeição e a confiança entre os cônjuges, aquele titular de bens ou negócios administrados pelo outro tem o legítimo interesse ao pleno conhecimento da forma como são conduzidos, não se revelando necessária a demonstração de qualquer irregularidade, prejuízo ou crédito em detrimento do gestor.

Nesse sentido:

Não há correlação necessária entre o dever jurídico de prestar contas e a situação de devedor; nem aquele a quem as contas são devidas é necessariamente credor de algum pagamento . A prestação de contas tem precisamente a finalidade de aclarar qual o estado, em determinado momento, das relações contrapostas de débito e crédito entre os interessados, de tal modo que só depois de prestadas se saberá quem há de pagar e quem tem a receber . Pode suceder que o administrador de bens ou interesses alheios, ou quem esteja em posição assemelhável a essa , seja credor do titular dos bens ou interesses, por haver despendido mais do que recebeu ; nem por isso se exime da obrigação de prestar contas . Não se confunde a obrigação específica de prestar contas com a de dar ou de pagar, nem o direito a exigir contas com o direito a receber pagamento. Aquele que presta contas frequentemente o faz no interesse de apurar um saldo que supõe lhe seja favorável, a fim de colocar-se em condições de exigir o pagamento respectivo .  (FABRÍCIO, Adroaldo Furtado. Comentários ao código de processo civil . Rio de Janeiro: Forense, 2001, p. 387-388) (grifei)  

Colhem-se, outrossim, os seguintes trechos de doutrina, reconhecendo o dever de prestar contas do ex-cônjuge que estiver na administração exclusiva dos bens comuns do casal:

Na vigência da comunhão de bens, os cônjuges entre si não se acham jungidos ao dever de prestação de contas. A comunhão de bens é a mais ampla possível e não permite a separação de cotas, nem mesmo ideal entre os consortes. Não há, pois, como cogitar-se de prestação de contas de um cônjuge ao outro. Uma vez dissolvida a sociedade conjugal, desaparece a comunhão universal e os bens comuns devem ser partilhados como em qualquer comunhão que se extingue. Havendo, porém, um interregno entre a dissolução da sociedade conjugal e a partilha, aquele que conservar a posse dos bens do casal estará sujeito a prestação de contas como qualquer consorte de comunhão ordinária. In casu , não é preciso demonstrar a existência de autorização ou mandato entre os ex-cônjuges em torno da administração do patrimônio comum para justificar o pleito judicial de acerto de contas. É que a ação de prestação de contas não se subordina sempre e invariavelmente a um mandato entre as partes. Ao contrário, o princípio universal que domina a matéria é que "todos aqueles que administram, ou têm sob sua guarda, bens alheios devem prestar contas". Daí que basta o fato de um bem achar-se, temporariamente, sob administração de outrem que não o dono, para que esse detentor tenha que dar contas da gestão eventualmente desempenhada, ainda que não precedida de acordo ou autorização por parte do proprietário. A gestão de negócio, um dos principais fundamentos do dever de prestar contas, ocorre à revelia do dono, segundo a definição do art. 1.331 do Código Civil, razão pela qual não se pode negar ao comunheiro o direito a exigir contas do consorte que explora com exclusividade os bens comuns a pretexto de inexistência de mandato ou outro negócio jurídico entre os interessados. (THEODORO Júnior: Humberto. Curso de direito processual civil: procedimentos especiais . Rio de Janeiro: Forense, 1990, p. 1.557-1.558) (grifei) --------------------------------------------------------------- Ficando o patrimônio comum nas mãos e sob a administração de somente um dos cônjuges, o administrador tem a obrigação de prestar contas , bem como deve entregar parte da renda líquida ao outro (LA, 4º, parágrafo único). Tal determinação tem cabimento não só no regime da comunhão universal de bens, mas em qualquer regime em que haja comunhão de aquestos. (DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias . São Paulo: RT, 2009, p. 302)  

Por fim, deve-se citar julgados da Terceira Turma no mesmo diapasão:

  RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. FAMÍLIA. CASAMENTO SOB REGIME DE COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS. SEPARAÇÃO DE FATO. RESPONSABILIDADE. SÚMULA Nº 7⁄STJ. POSSIBILIDADE DE PRESTAÇÃO DE CONTAS ANTES DA FORMALIZAÇÃO DA PARTILHA DE BENS. EVENTUAL PREJUÍZO NA POSTERIOR DIVISÃO PATRIMONIAL. CABIMENTO DA AÇÃO. (....) 2. A "prestação de contas é devida por quantos administram bens de terceiros" (REsp nº 327.363-RS e AgRg no Ag nº 45.515⁄MG, relator Min. Barros Monteiro; AgRg no Ag nº 33.211⁄SP, relator Ministro Eduardo Ribeiro). 3. Na hipótese dos autos, os bens comuns dos cônjuges casados sob regime de comunhão universal de bens, e separados de fato desde 1º de janeiro de 1990, ficaram sob administração do cônjuge varão, que assumiu "o dever de detalhar e esclarecer os rendimentos advindos das terras arrendadas, bem como prestar as respectivas informações quanto ao patrimônio comum" (fl. 1.486 e-STJ), circunstância que não pode ser revolvida nesta instância especial em razão do óbice constante da Súmula nº 7⁄STJ. 4. O transcurso de longo lapso temporal entre a separação de fato e a formalização da partilha obriga o gestor dos bens comuns à prestação de contas ao outro consorte, que desconhece o estado dos bens administrados e pode deparar-se com prejuízos irreparáveis. 5. Na vigência da comunhão de bens, os cônjuges entre si não se acham jungidos ao dever de prestação de contas. A comunhão de bens é a mais ampla possível e não permite a separação de cotas, nem mesmo ideal entre os consortes. Não há, pois, como cogitar-se de prestação de contas de um cônjuge ao outro. Uma vez dissolvida a sociedade conjugal, desaparece a comunhão universal e os bens comuns devem ser partilhados como em qualquer comunhão que se extingue. Havendo, porém, um interregno entre a dissolução da sociedade conjugal e a partilha, aquele que conservar a posse dos bens do casal estará sujeito a prestação de contas como qualquer consorte de comunhão ordinária. In casu , não é preciso demonstrar a existência de autorização ou mandato entre os ex-cônjuges em torno da administração do patrimônio comum para justificar o pleito judicial de acerto de contas. É que a ação de prestação de contas não se subordina sempre e invariavelmente a um mandato entre as partes. Ao contrário, o princípio universal que domina a matéria é que 'todos aqueles que administram, ou têm sob sua guarda, bens alheios devem prestar contas'. Daí que basta o fato de um bem achar-se, temporariamente, sob administração de outrem que não o dono, para que esse detentor tenha que dar contas da gestão eventualmente desempenhada , ainda que não precedida de acordo ou autorização por parte do proprietário. A gestão de negócio, um dos principais fundamentos do dever de prestar contas, ocorre à revelia do dono, segundo a definição do art. 1.331 do Código Civil, razão pela qual não se pode negar ao comunheiro o direito a exigir contas do consorte que explora com exclusividade os bens comuns a pretexto de inexistência de mandato ou outro negócio jurídico entre os interessados" (Humberto Theodoro Júnior, in Curso de Direito Processual Civil - Procedimentos Especiais, Rio de Janeiro, Editora Forense, 1990, págs. 1.557⁄1.558, grifou-se). 6. A legitimidade ativa para a ação de prestação de contas decorre excepcionalmente, do direito de um dos consortes obter informações acerca dos bens de sua propriedade, mas administrados pelo ex-cônjuge (gestor do patrimônio comum), durante o período compreendido entre a separação de fato e a partilha de bens da sociedade conjugal. 7. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, não provido. ( REsp 1.300.250⁄SP , Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 27.03.2012, DJe 19.04.2012) (grifei) ------------------------------------------------------------- RECURSO ESPECIAL. DIREITO DE FAMÍLIA. ALIMENTOS. PEDIDO DE EXONERAÇÃO. PENDÊNCIA DE PARTILHA OBSTADA PELO RECORRIDO. PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. PATRIMÔNIO COMUM DO CASAL SOB A EXCLUSIVA POSSE E ADMINISTRAÇÃO DO ALIMENTANTE. PECULIARIDADE APTA A ENSEJAR O RESTABELECIMENTO DA OBRIGAÇÃO ALIMENTAR ENQUANTO A SITUAÇÃO PERDURAR. PERICULUM IN MORA INVERSO. 1. A obrigação alimentícia deve ser mantida enquanto pendente a partilha do patrimônio comum do ex-casal manifestamente procrastinada pelo ex-cônjuge recalcitrante, que se encontra na exclusiva posse e administração dos bens e não coopera para que a controvérsia seja dirimida judicialmente. 2. A prestação alimentícia deve ser proporcional às necessidades da beneficiária e aos recursos do alimentante (art. 1.694, § 1º, do Código Civil),  configurando direito fundamental de grau máximo para o alimentário, por lhe garantir a existência digna, de modo que a presença de periculum in mora inverso justifica a medida que afasta a tutela antecipada. 3. O perigo da demora deve ser avaliado de forma igualitária para ambas as partes. 4. O casamento estabelece uma plena comunhão, cujo consectário não é apenas o entrelaçamento  de vidas, mas também de patrimônios, que deve ser entendido com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges (art. 1.511 do Código Civil), com o fim da vida em comum pela ausência do ânimo socioafetivo, real motivação da comunicação patrimonial, há a cessação do regime de bens. 5. A administração do patrimônio comum da família compete a ambos os cônjuges (arts. 1.663 e 1.720 do CC), presumindo a lei ter sido adquirido pelo esforço comum do casal, sendo certo que o administrador dos bens em estado de mancomunhão tem a obrigação de prestar contas ao outro cônjuge alijado do direito de propriedade. 6. Atenta contra a igualdade constitucional conferir indistintamente, na constância do casamento, a qualquer dos consortes a administração exclusiva dos bens comuns, motivo pelo qual, após a ruptura do estado condominial pelo fim da convivência, impõe-se a realização imediata da partilha, que, uma vez obstada, justifica o restabelecimento da obrigação alimentar transitória enquanto perdurar a situação excepcional. 7. Recurso especial conhecido e provido. ( REsp 1.287.579⁄RN , Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 11.06.2013, DJe 02.08.2013) ------------------------------------------------------------- RECURSO ESPECIAL. DIREITO DE FAMÍLIA. PATRIMÔNIO COMUM DO CASAL. POSSE EXCLUSIVA DE UM DOS EX-CÔNJUGES. ALUGUÉIS. PENDÊNCIA DE PARTILHA. INDENIZAÇÃO AFASTADA. DEVER DE PRESTAÇÃO DE CONTAS. LOCUPLETAMENTO ILÍCITO. VEDAÇÃO. MOMENTO PROCESSUAL OPORTUNO. 1. O arbitramento de aluguel, bem como o ressarcimento pelo uso exclusivo de bem integrante do patrimônio comum do casal, somente é possível nas hipóteses em que, decretada a separação ou o divórcio e efetuada a partilha, um dos cônjuges permaneça residindo no imóvel. 2. A ruptura do estado condominial pelo fim da convivência impõe a realização imediata da partilha, que, uma vez procrastinada, enseja a obrigação de prestar contas ao outro cônjuge alijado do direito de propriedade no momento processual oportuno. 3. A administração do patrimônio comum da família compete a ambos os cônjuges (arts. 1.663 e 1.720 do CC), sendo certo que o administrador dos bens em estado de mancomunhão tem o dever de preservar os bens amealhados no transcurso da relação conjugal, sob pena de locupletamento ilícito. 4. Recurso especial conhecido e provido. ( REsp 1.470.906⁄SP , Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 06.10.2015, DJe 15.10.2015) (grifei)  

Desse modo, penso sobressair o dever de prestação de contas do cônjuge que se encontra na administração exclusiva do acervo patrimonial comum ainda não partilhado, devendo, assim, ser restabelecida a sentença de procedência.

6. Por fim, e apenas a título de registro, tendo em vista a extensão e a complexidade do conteúdo das contas exigidas pela ex-esposa na espécie, deve-se observar a jurisprudência desta Corte no sentido de que "o prazo de quarenta e oito horas disposto no artigo 915, § 2º, do CPC⁄73, não é peremptório, permitindo flexibilização pelo julgador conforme a complexidade das contas a serem prestadas" (AgInt no AREsp 833.428⁄MS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 18.05.2017, DJe 01.06.2017; AgRg no REsp 1.166.505⁄PR, Rel. Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado em 20.06.2013, DJe 28.06.2013; e REsp 1.194.493⁄RJ, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 23.10.2012, DJe 30.10.2012).

Consequentemente, poderá o juízo de piso, se for o caso, examinar o prazo e a extensão do dever de prestar contas na hipótese em apreço.

7. Ante o exposto, dou provimento ao recurso especial a fim de restabelecer a sentença de procedência, podendo o juízo da fase de execução ampliar o prazo para a prestação de contas. Fixo os honorários de sucumbência, atentando aos critérios legais, em R$ 20.000,00 (vinte mil reais).

É como voto.


Documento: 73432022 RELATÓRIO, EMENTA E VOTO
Disponível em: https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/511766995/recurso-especial-resp-1274639-sp-2011-0145335-2/relatorio-e-voto-511767022

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