jusbrasil.com.br
31 de Julho de 2021
2º Grau
Entre no Jusbrasil para imprimir o conteúdo do Jusbrasil

Acesse: https://www.jusbrasil.com.br/cadastro

Superior Tribunal de Justiça STJ - AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL : AREsp 0006075-97.2018.8.21.0023 RS 2020/0020150-3

Superior Tribunal de Justiça
ano passado
Detalhes da Jurisprudência
Publicação
DJ 15/04/2020
Relator
Ministro JOEL ILAN PACIORNIK
Documentos anexos
Decisão MonocráticaSTJ_ARESP_1654306_b2625.pdf
Entre no Jusbrasil para imprimir o conteúdo do Jusbrasil

Acesse: https://www.jusbrasil.com.br/cadastro

Decisão

AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1654306 - RS (2020/0020150-3) RELATOR : MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK AGRAVANTE : CRISTIANO DA MOTA GREQUE ADVOGADOS : RAFAEL RAPHAELLI - DEFENSOR PÚBLICO - RS032676 DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL DECISÃO Trata-se de agravo contra decisão que negou seguimento a recurso especial interposto contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Consta dos autos que o agravante foi condenado como incurso no art. 16, parágrafo único, IV, da Lei n. 10.826/2003, (porte ilegal de arma de fogo), às penas de 4 anos e 6 meses de reclusão, em regime fechado, e pagamento de 10 dias-multa, conforme a sentença de fls. 146/153. Irresignada, a defesa interpôs apelação, buscando a absolvição, a redução da pena e a isenção da multa. O Tribunal de origem negou provimento ao recurso, em acórdão assim ementado (fl. 623): APELAÇÃO CRIMINAL. PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO. ART. 16, PARÁGRAFO ÚNICO, INCISO IV, DA LEI 10.826/03. PROVAS DE MATERIALIDADE E AUTORIA. CIRCUNSTÂNCIAS DESFAVORÁVEIS. PALAVRA DOS POLICIAIS. CONDENAÇÃO. DOSIMETRIA DA PENA. 1. O porte ilegal de arma de fogo é crime de perigo abstrato e de mera conduta, mostrando-se prescindível a demonstração de perigo concreto. Precedentes. Na esteira do entendimento dos Tribunais, em especial o Supremo Tribunal Federal, não são inconstitucionais os crimes de perigo abstrato, a exemplo daqueles previstos na Lei 10.826/03, que teve sua constitucionalidade assentada na ADI 3.112/DF. 2. Pratica o crime do art. 16, parágrafo único, inciso IV, da Lei 10.826/03, aquele que porta arma de fogo de uso restrito com numeração raspada, em desacordo com determinação legal ou regulamentar. 3. Não houve dúvida de que a arma apreendida estava na posse do acusado, levando-se em conta o relato fidedigno apresentado pelos policiais que participaram da prisão, cujo relato se amolda às circunstâncias evidenciadas nos autos. Condenação mantida. 4. Compete ao Juízo da origem definir a pena adequada ao caso, comportando alteração, em grau de recurso, apenas em situações em que a modificação não for arrazoada, proporcional ou contrariar disposição legal ou preceito constitucional. Caso concreto em que a pena está adequada. Pena mantida. 5. A multa é preceito secundário do tipo pelo qual o apelante foi condenado, não havendo previsão legal para a isenção do pagamento. No presente caso, foi arbitrada no mínimo legal, ou seja, em 10 dias -multa, na razão unitária de 1/30 do salário mínimo, o que se revela benéfico ao recorrente. APELAÇÃO NÃO PROVIDA. Os embargos opostos pela defesa foram rejeitados (fls. 264/268 e 280/286). Nas razões do recurso especial, alega a defesa violação dos artigos 12, 14, 16, parágrafo único, inciso IV, e 32 da Lei n.10.826/2003, 2º, parágrafo único, do Código Penal, 2º, inciso I, e 58 do Decreto n. 9.785/2019 (art. 50 do Decreto n. 9.844/2019 e art. , I) e 386, inciso III, do Código de Processo Penal. Sustenta, a atipicidade do fato pela abolitio criminis. Aduz que "a abolitio criminis, afora atingir a posse ilegal de arma de fogo, conforme expressamente dispõe o art. 32 da Lei 10.826/03, restabelecido pelo art. 58 do Decreto 9.785/19 e art. 50, do Decreto 9.844/19, se estende aos demais tipos previstos nos arts. 14 e 16, caput e parágrafo único, da Lei 10.826/03, pois o Decreto regulamenta o porte de arma e prevê a possibilidade de cadastramento de armas sem numeração, com numeração raspada ou adulteradas" (fl. 296). Requer a absolvição do recorrente pela atipicidade da conduta. O Tribunal a quo não admitiu o recurso especial pela incidência das Súmulas ns. 83 e 211 do STJ (fls. 331/340). Contraminuta às fls. 366/369. O Ministério Público Federal manifestou-se pelo desprovimento do agravo (fls. 392/399). É o relatório. Decido. O recurso não merece acolhida. O recorrente não encontra amparo na jurisprudência desta Corte, que já se posicionou no sentido de que "A denominada abolitio criminis temporária, ocorrida com o advento da Lei n. 10.826/2003, que concedeu um prazo de 180 dias aos possuidores e proprietários de armas de fogo não registradas para entregá-las à Polícia Federal, não tem aplicabilidade aos condenados pela prática de porte ilegal de arma de fogo" (HC 163.324/RJ, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, DJe 08/10/2015). Assim, ainda que se acolhesse a alegação do agravante, de que o art. 58 do Decreto n. 9.785/2019 teria restabelecido o art. 32 da Lei n. 10.826/2003, não seria o caso de reconhecimento da abolitio criminis, pois a hipótese dos autos trata de crime deporte de arma de fogo (14, caput, da Lei n. 10.826/2003) e não posse. Confiram-se os seguintes julgados: [...] PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO. ABOLITIO CRIMINIS TEMPORÁRIA. INEXISTÊNCIA. INCIDÊNCIA SOMENTE PARA POSSE ILEGAL DE ARMA DE FOGO. TIPICIDADE DA CONDUTA. 1. É entendimento desta Corte Superior de Justiça que somente as condutas delituosas relacionadas à posse de arma de fogo foram abarcadas pela denominada abolitio criminis temporária, prevista nos artigos 30, 31 e 32 da Lei 10.826/2003, não sendo possível estender o benefício para o crime de porte ilegal de arma de fogo. Precedentes. 2. Agravo regimental desprovido (AgRg no REsp 1.720.551/AM, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, DJe 14/12/2018). PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO. CRIME AMBIENTAL. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. REEXAME DE PROVAS. ATIPICIDADE. ABOLITIO CRIMINIS. NÃO OCORRÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. [...] 2. "A denominada abolitio criminis temporária, ocorrida com o advento da Lei n. 10.826/2003 - que concedeu um prazo de 180 dias aos possuidores e proprietários de armas de fogo não registradas para entregá-las à Polícia Federal -, não tem aplicabilidade aos condenados pela prática de porte ilegal de arma de fogo" (HC 163.324/RJ, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, DJe 08/10/2015). 3. Agravo regimental desprovido (AgRg no REsp 1.676.059/RS, por mim relatado, QUINTA TURMA, DJe 13/06/2018). PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PORTE ILEGAL DE ARMA DE USO RESTRITO. ATIPICIDADE DA CONDUTA. POSSE DE ARAMA. ESTATUTO DO DESARMAMENTO. CONFIGURADO O PORTE. PRECEDENTES. REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ [...] II - Cumpre ressaltar, também, que a jurisprudência dessa Corte é firme no sentido de que "as disposições trazidas nos arts. 30 e 32 do Estatuto do desarmamento e nas sucessivas prorrogações dizem respeito apenas ao delito de posse ilegal de arma (art. 12 da Lei n. 10.826/2003), não sendo aplicáveis ao crime de porte ilegal de arma" (AgRg no AREsp n. 226.309/PE, Quinta Turma, Ministra Laurita Vaz, DJe 22/8/2014). [...] Agravo regimental desprovido (AgInt no AREsp 1.127.872/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, DJe 21/05/2018). AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PORTE DE ARMA. VIOLAÇÃO DO ART. 155 DO CPP. INEXISTÊNCIA. VALIDADE PROBATÓRIA DO DEPOIMENTO DE POLICIAIS CONFIRMADOS EM JUÍZO. PRECEDENTE. TESE DE CONDENAÇÃO LASTREADA EM PROVA INQUISITORIAL. IMPROCEDÊNCIA. SÚMULA 568/STJ. PROVAS PARA CONDENAÇÃO. SÚMULA 7/STJ. CONDUTA NÃO ALCANÇADA PELA ABOLITIO CRIMINIS. PRECEDENTE. DOSIMETRIA. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE. REGIME PRISIONAL. ADEQUAÇÃO. AGRAVO DESPROVIDO. [...] 4. Consoante a jurisprudência deste Tribunal Superior, as disposições trazidas nos arts. 30 e 32 do Estatuto do Desarmamento e nas sucessivas prorrogações referem-se apenas aos delitos de posse ilegal de arma de uso permitido ou restrito, sendo inaplicáveis ao crime de porte ilegal de arma, hipótese dos autos. Precedente. [...] 7. Agravo regimental não provido (AgRg no AREsp 991.046/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, DJe 16/08/2017). Ante o exposto, com fundamento na Súmula n. 568/STJ, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se. Brasília, 14 de abril de 2020. Ministro Joel Ilan Paciornik Relator
Disponível em: https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/859890569/agravo-em-recurso-especial-aresp-1654306-rs-2020-0020150-3