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27 de Maio de 2022
  • 2º Grau
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Superior Tribunal de Justiça
há 10 anos
Detalhes da Jurisprudência
Processo
EREsp 684594 RS 2005/0197555-9
Órgão Julgador
S1 - PRIMEIRA SEÇÃO
Publicação
DJ 15/10/2007 p. 218
Julgamento
12 de Setembro de 2007
Relator
Ministra DENISE ARRUDA
Documentos anexos
Inteiro TeorERESP_684594_RS_1271521815138.pdf
Certidão de JulgamentoERESP_684594_RS_1271521815140.pdf
Relatório e VotoERESP_684594_RS_1271521815139.pdf
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Relatório e Voto

EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RESP Nº 684.594 - RS (2005/0197555-9)
RELATORA : MINISTRA DENISE ARRUDA
EMBARGANTE : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
EMBARGADO : MUNICÍPIO DE SÃO LEOPOLDO
ADVOGADO : VIVIANE DE FÁTIMA BLANCO E OUTRO (S)
EMBARGADO : ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PROCURADOR : JORGE LUIS TERRA DA SILVA E OUTRO (S)
RELATÓRIO
A EXMA. SRA. MINISTRA DENISE ARRUDA (Relatora):
Trata-se de embargos de divergência manifestados contra acórdão proferido pela Segunda Turma, Relator o Ministro Castro Meira, assim ementado (fl. 180):
"PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. FORNECIMENTO DE DISPOSITIVO MÉDICO. MENOR CARENTE. AÇAO CIVIL PÚBLICA. MINISTÉRIO PÚBLICO. LEGITIMIDADE.
1. Na esteira do artigo 129 da Constituição Federal, a legislação infraconstitucional, inclusive a própria Lei Orgânica, preconiza que o Ministério Público tem legitimidade ativa ad causam para propor ação civil pública para a proteção de interesses difusos e coletivos, como regra. Em relação aos interesses individuais, exige que também sejam indisponíveis e homogêneos. No caso em exame, pretende-se que seja reconhecida a sua legitimidade para agir como representante de pessoa individualizada, suprimindo-se o requisito da homogeneidade.
2. O interesse do menor carente deve ser postulado pela Defensoria Pública, a quem foi outorgada a competência funcional para a" orientação jurídica e a defesa, em todos os graus, dos necessitados na forma do art. 5º, LXXIV ". Não tem o Ministério Público legitimidade para propor ação civil pública, objetivando resguardar interesses individuais, no caso de um menor carente.
3. Recurso especial improvido."
Em suas razões, alega o embargante dissídio, entre outros, com o REsp 716.512/RS (1ª Turma, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 14.11.2005). Sustenta, em síntese, que o Ministério Público possui legitimidade para mover ação civil pública em prol do direito à saúde de menor carente. Ao final, requer o conhecimento e provimento dos presentes embargos de divergência, adotando-se o entendimento dos acórdãos paradigmas, com a conseqüente reforma do aresto embargado.
Inicialmente distribuídos à Corte Especial, sob a relatoria do Exmo. Sr. Ministro Felix Fischer, os embargos de divergência foram indeferidos em relação aos arestos paradigmas proferidos pela Quarta Turma. Outrossim, determinou-se a redistribuição dos autos à Primeira Seção para a análise do recurso em face dos julgados remanescentes.
Os autos foram redistribuídos a esta Relatora à fl. 308.
Admitido o recurso e intimados os embargados para impugnação, o Estado do Rio Grande do Sul apresentou resposta às fls. 312/320, defendendo o desprovimento dos embargos.
É o relatório.
EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RESP Nº 684.594 - RS (2005/0197555-9)
VOTO
A EXMA. SRA. MINISTRA DENISE ARRUDA (Relatora):
A hipótese dos autos está relacionada à existência de legitimidade ativa do Ministério Público para defender direito à saúde de um único paciente (menor), que necessita de tratamento médico custeado pelo Estado.
Dispõe o art. 127 da Constituição Federal: "O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. "Por sua vez, o art. 129 da Carta Magna estabelece como função institucional do Ministério Público "exercer outras funções que lhe forem conferidas, desde que compatíveis com sua finalidade" . A interpretação do Supremo Tribunal Federal sobre os referidos dispositivos constitucionais é no sentido de que "A Carta Federal outorgou ao Ministério Público a incumbência de promover a defesa dos interesses individuais indisponíveis, podendo, para tanto, exercer outras atribuições prescritas em lei, desde que compatível com sua finalidade institucional (CF, artigos 127 e 129)" (excerto da ementa do RE 248.869/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Maurício Corrêa, DJ de 12.3.2004, p. 773).
Portanto, presente a necessidade de proteção ao direito à saúde - tratamento médico -, o qual, indiscutivelmente, deve ser considerado como direito individual indisponível, é lícito afirmar que o Ministério Público é legitimado a defender o referido direito, ainda que em favor de pessoa determinada.
Ademais, o art. 201, V, da Lei 8.069/90, dispõe que compete ao Ministério Público "promover o inquérito civil e ação civil pública para proteção dos interesses individuais, difusos e coletivos relativos à infância e à adolescência, inclusive os definidos no art. 220, 3º, inciso II, da Constituição Federal".
Sobre o tema, a lição de Hugo Nigro Mazzilli ( A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo , 19ª edição, São Paulo: Saraiva, 2006, p. 589):
"Dado o caráter indisponível das crianças e adolescentes, a lei comete ao Ministério Público não só sua defesa coletiva, como até mesmo sua defesa individual. Assim, o Ministério Público pode ajuizar ação civil pública não só para defesa de interesses transindividuais como até mesmo de uma única criança ou de um único adolescente (como para assegurar-lhe atendimento médico ou vaga em escola)."
Efetivamente, a orientação jurisprudencial desta Corte Superior sobre o tema não era pacífica, em razão da alegada impossibilidade de a proteção movida pelo Parquet estar direcionada ao interesse individual de determinada pessoa. Nesse sentido: REsp 665.164/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Franciulli Netto, DJ de 20.3.2006, p. 238; REsp 672.871/RS, 2ª Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ de 1º.2.2006, p. 485; REsp 664.978/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, DJ de 15.8.2005, p. 266; REsp 664.139/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 12.5.2005, p. 222.
Entretanto, esta Primeira Seção pacificou o entendimento das Turmas de Direito Público, no sentido de que o Ministério Público possui legitimidade para ajuizar medidas judiciais a fim de defender direitos individuais indisponíveis, ainda que em favor de um único paciente:
"PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. TRATAMENTO MÉDICO MÉDICO. MENOR CARENTE. AÇAO CIVIL PÚBLICA. MINISTÉRIO PÚBLICO. LEGITIMIDADE. SÚMULA 168/STJ.
1. A Segunda Turma passou, recentemente, a reconhecer que o Parquet tem legitimidade para propor ação civil pública com objetivo de resguardar o interesse individual de menor que necessita de tratamento médico. Precedente : REsp 688.052/RS , Rel. Min. Humberto Martins, DJ de 17.08.06.
2. Precedente da Primeira Seção: EREsp 485.969/SP, Rel. Min. José Delgado, acórdão pendente de publicação.
(...)
4. Embargos de divergência não conhecidos."
(EREsp 734.493/RS, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 16.10.2006)
"PROCESSUAL CIVIL, ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. AÇAO CIVIL PÚBLICA. LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO. DIREITO CONSTITUCIONAL À CRECHE, AOS MENORES DE ZERO A SEIS ANOS. OBRIGAÇAO DE FAZER. EXIGIBILIDADE EM JUÍZO. PRECEDENTES DESTA CORTE E DO COLENDO STF.
1. O acórdão embargado reconheceu, ex officio , a ilegitimidade do Ministério Público para, via ação civil pública, defender interesse individual de menor, visto que, na referida ação, atua o Parquet como substituto processual da sociedade e, como tal, pode defender o interesse de todas as crianças do Município para terem assistência educacional, configurando a ilegitimidade quando a escolha se dá na proteção de um único menor.
2." Sendo a educação um direito fundamental assegurado em várias normas constitucionais e ordinárias, a sua não-observância pela administração pública enseja sua proteção pelo Poder Judiciário "(AgReg no RE nº 463210/SP, 2ª Turma, Rel. Min. CARLOS VELLOSO, DJ de 03/02/2006).
(...)
4. Legitimidade ativa do Ministério Público reconhecida.
5. Precedentes desta Corte Superior e do colendo STF.
6. Embargos de divergência conhecidos e providos."
(EREsp 485.969/SP, Rel. Min. José Delgado, DJ de 11.9.2006, p. 220)
No mesmo sentido, os recentes precedentes desta Corte Superior: EREsp 466.861/SP, 1ª Seção, Rel. Min Teori Albino Zavascki, DJ de 7.5.2007; REsp 920.217/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, DJ de 6.6.2007; REsp 852.935/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 4.10.2006; REsp 823.079/RS, 1ª Turma, Rel. Min. José Delgado, DJ de 2.10.2006; REsp 856.194/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Humberto Martins, DJ de 22.9.2006; REsp 700.853/RS, 1ª Turma, Rel. p/ acórdão Min. Luiz Fux, DJ de 21.9.2006; REsp 822.712/RS, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 17.4.2006.
Ante o exposto, deve ser dado provimento aos presentes embargos de divergência.
É o voto.

Documento: 3312938 RELATÓRIO E VOTO
Disponível em: https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/8861961/embargos-de-divergencia-no-recurso-especial-eresp-684594-rs-2005-0197555-9-stj/relatorio-e-voto-13955683

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